O vento e as estradas
Sócio do Portugal Ribeiro Advogados e mestre em direito pela Harvard Law School
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"O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai." A frase é do Evangelho de João. Jesus a diz a Nicodemos, um fariseu que o procura de noite, para não ser visto, querendo entender quem ele é. Nicodemos pede uma explicação; Jesus lhe dá uma imagem. O espírito é como o vento (em grego, são a mesma palavra): ninguém vê, ninguém controla, todos sentem.
Durante muito tempo li a frase como um limite, um "não tente explicar". Mas ela também diz que a voz do vento se ouve. E uma voz que saiu de uma aldeia da Galileia e chegou até aqui, 2.000 anos depois, passou por algum lugar. Dá para perguntar por onde.
O que a mensagem cristã tem a ver com infraestrutura ? Mais do que se costuma admitir. Uma rede de transporte e comunicação, com estradas, portos, estalagens, um serviço oficial de transporte, uma língua comum, casas de reunião em cada cidade, um suporte barato para o texto e um modelo de prédio público: tudo o que a fé precisou para circular já estava construído, e por outras razões.
É possível que o cristianismo não tivesse chegado até nós sem isso. Sem essa rede, Jesus talvez fosse lembrado como um dos profetas de Israel, que é o que o islã vê nele, ou como um rabi galileu de palavra incomum, como o veem muitos judeus de hoje, e não como o centro de uma fé que reúne quase um terço da humanidade. O que nos trouxe o cristianismo foi a combinação de duas coisas: a obstinação de um punhado de pescadores, artesãos e um fabricante de tendas e uma rede que lhes permitiu ir aonde ninguém os mandara ir.
Obstinação é pouco. Durante quase três séculos, de Nero a Diocleciano, ser cristão podia custar a vida, e muitos a deram sem que a rede os protegesse. A rede apenas garantiu que a notícia da morte deles chegasse longe, a ponto de Tertuliano escrever, por volta do ano 200, que o sangue dos mártires era semente de cristãos.
Essa rede tinha nome: Pax Romana. Pompeu limpara o mar dos piratas, e os engenheiros das legiões haviam estendido, estima-se, mais de 80 mil quilômetros de vias pavimentadas , com pontes, estalagens e um serviço de transporte oficial. No oriente do império falava-se o grego comum, a koiné, a infraestrutura invisível da rede: herança de Alexandre que sobreviveu ao império macedônio e que Roma teve a prudência de não substituir pelo latim . Era o que o francês das chancelarias foi para a Europa e o inglês é para o mundo de hoje: a língua em que um sírio negociava com um egípcio e em que os quatro evangelhos canônicos seriam escritos.
Em cada cidade importante havia uma sinagoga da diáspora, um ponto de acesso à rede, onde um forasteiro podia falar e ser ouvido.
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