‘A Quinta Portuguesa’ faz do deslocamento um caminho para descobrir quem somos
Somos realmente do lugar onde nascemos? O país que consta em nosso documento, a cidade onde crescemos, a língua que aprendemos primeiro ou os costumes que herdamos são suficientes para determinar quem somos? E quando deixamos tudo isso para trás — quando mudamos de país, de idioma, de rotina e até de identidade — o que permanece? É a partir dessas questões que A Quinta Portuguesa , drama dirigido por Avelina Prat ( Tão Perto, Tão Distante ), constrói uma delicada reflexão sobre pertencimento.
Mais do que contar a história de um homem que assume a identidade de outra pessoa, o filme questiona a própria ideia de que nossa origem seja capaz de explicar inteiramente quem somos.
Na trama, Fernando ( Manolo Solo , Fechar os Olhos ), um pacato professor de Geografia devastado pelo desaparecimento da esposa, abandona a própria vida na Espanha e, em Portugal, assume outra identidade, passando a trabalhar como jardineiro em uma quinta portuguesa.
Ali, ele encontra um lugar onde ninguém parece interessado em exigir dele todas as respostas sobre seu passado.
É justamente nesse deslocamento que surge a possibilidade de uma nova existência.
Longe do ambiente que o definia, Fernando começa a descobrir que talvez identidade tenha menos a ver com aquilo que recebemos ao nascer e mais com aquilo que construímos ao longo do caminho.
A quinta, administrada por Amália ( Maria de Medeiros , Pulp Fiction ), nesse sentido, torna-se muito mais do que o cenário da história.
É um espaço de acolhimento, liberdade e reinvenção, onde diferentes trajetórias se encontram.
A proximidade entre Portugal e Espanha também reforça a ideia de que fronteiras geográficas não necessariamente correspondem às fronteiras internas das pessoas.
Os personagens carregam suas memórias, idiomas e experiências, mas também absorvem aquilo que encontram em seus deslocamentos.
O filme parece sugerir que pertencer a algum lugar não significa necessariamente ter nascido ali — pode significar sentir-se reconhecido, acolhido ou simplesmente encontrar naquele espaço uma possibilidade de existir.
É nesse novo espaço que surge a relação entre Fernando e Amália .
Nota-se nela uma história que o filme prefere apenas insinuar: sabemos de suas viagens e de sua ligação com a África, mas nunca temos acesso completo ao que a tornou aquela mulher.
Entre os dois nasce uma proximidade igualmente difícil de definir, construída por olhares, conversas breves, silêncios e uma espécie de reconhecimento mútuo entre duas pessoas que parecem carregar algum tipo de deslocamento interior.
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