Cinco quarteirões somem no mar enquanto a areia reaparece na praia vizinha: o fenômeno mapeado há 60 anos no litoral fluminense
A mesma faixa costeira apresenta perda de terreno de um lado e ganho de areia de outro
Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR Uma praia parece um lugar fixo, mas é apenas o ponto de equilíbrio entre a areia que chega e a areia que vai embora. No norte do Rio de Janeiro , esse equilíbrio se rompeu: em Atafona , distrito de São João da Barra , o mar avançou sobre ruas inteiras, enquanto a poucos quilômetros dali outra praia engordou com o mesmo material. É o raro caso brasileiro em que dá para ver, no mapa, para onde foi a terra que faltou.
O bastante para apagar quarteirões inteiros da planta da cidade. Segundo a Universidade Federal Fluminense (UFF) , o distrito perdeu cinco quarteirões para a erosão costeira crônica entre 1976 e 2018 , e outros sete ficaram parcialmente danificados no período.
A área atingida com severidade chega a 215 mil metros quadrados , algo próximo de perder um quarteirão a cada dois anos e meio. O estudo do Laboratório de Geografia Física da universidade acompanhou o comportamento da linha de costa desde 1954 e classificou o trecho como um ponto proeminente de erosão, o que na literatura técnica se chama hot spot , faixas de pelo menos 5 km em processo acelerado.
Porque a areia não desaparece, apenas muda de endereço. As ondas chegam à costa em ângulo e empurram o sedimento em uma direção predominante, movimento chamado de deriva litorânea, uma espécie de esteira que corre paralela à praia. O que é retirado de um trecho acaba depositado adiante.
Foi exatamente o que os pesquisadores mediram: enquanto Atafona recua, os perfis analisados em Grussaí , praia vizinha, mostraram acreção, ou seja, ganho de areia. O trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Geomorfologia , que detalha a dinâmica no flanco sul do delta do Rio Paraíba do Sul . Dois lugares a poucos quilômetros um do outro vivem processos opostos e complementares.
Papel de fornecedor. Um delta se mantém porque o rio despeja no oceano um volume constante de sedimento, e as ondas devolvem parte desse material para a praia. O Paraíba do Sul percorre mais de mil quilômetros desde São Paulo , atravessa Minas Gerais e chega ao Atlântico justamente ali, na divisa entre a água doce e a salgada.
Quando esse fornecimento cai, a praia perde a capacidade de se recompor entre uma ressaca e outra. Represamentos ao longo da bacia, retirada da mata ciliar e assoreamento reduzem a carga de sedimento que chega à foz, e o resultado é uma costa que recua mais do que consegue repor. Vale a comparação: obras que redesenham o caminho da água mudam paisagens inteiras, como acontece com canais artificiais construídos para transportar água por centenas de quilômetros , só que aqui o efeito aparece na ponta final do sistema.
Uma orla que virou sala de aula ao ar livre. O Balneário de Atafona segue sendo o principal destino turístico do município e abriga o Espaço da Ciência , ligado ao Geoparque Costões e Lagunas , com exposição de estromatólitos coletados na Lagoa Salgada , estruturas formadas por colônias de bactérias fossilizadas, entre os registros mais antigos de vida preservados no litoral fluminense.
No entorno, a paisagem soma outros contrastes.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em oantagonista.com.br — o conteúdo pertence a O Antagonista.