Maria Martins e Duchamp, o caso de amor que marcou a arte surrealista
Em março de 1943, a escultora mineira Maria Martins (1894-1973) celebrava a inauguração de sua segunda exposição na Valentine Gallery, em Nova York, quando conheceu o francês Marcel Duchamp (1887-1968).
Então com 56 anos, o artista que abandonara o ofício para dedicar-se ao xadrez visitou o local a convite do colega e pintor holandês Piet Mondrian (1872-1944), mas sua atenção foi fisgada imediatamente pela brasileira.
Até hoje, não se sabe o que Maria e Duchamp conversaram naquele dia, mas o papo rendeu um novo encontro semanas depois, dando início a um romance que influenciou a vida e a obra da dupla — mas que foi vivido apenas em segredo.
“Maria era casada com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos e tinha dois filhos adolescentes em casa.
Ela não estava disposta a abrir mão disso”, explica a VEJA o renomado historiador da arte Francis Naumann, autor de Impossível: a História de Amor de Maria Martins e Marcel Duchamp.
ETERNIZADOS - A instalação Étant Donnés (acima), última obra de Duchamp; os amantes com amigos (abaixo, à esq., o casal de preto); e a escultura Impossível, de Maria Martins (abaixo, à dir.): apesar da discrição, muitos sabiam do romance Fotos Association Marcel Duchamp/AUTVIS Brasil/.
Recém-lançado no Brasil, o livro esmiúça o caso, passando não apenas pelos encontros secretos em hotéis e ateliês, mas também pelo impacto da relação.
Da controversa arte conceitual Paisagem Desviada (1946), dada por Duchamp à amada — e feita a partir de resquícios do próprio sêmen — , até a aflição inquietante da escultura O Impossível , de Maria, interpretada por Naumann como uma representação da inviabilidade do romance, o amor proibido deixou marcas na carreira dos artistas.
“Maria poderia ter continuado como escultora surrealista, mas talvez não tivesse as oportunidades de exposição que teve com a intermediação de Duchamp”, aponta o autor.
“Mas ele, certamente, não teria feito nada parecido com sua obra final sem ela.” O trabalho em questão é a imponente instalação Étant Donnés (1946-1966), que levou vinte anos para ser feita.
Revelada em 1969, meses após a morte do francês, a obra póstuma envolve uma ilusão de óptica: o apreciador deve olhar através de buracos em uma porta de madeira para ver, no centro, a imagem de uma mulher nua em uma floresta, manequim moldado a partir do corpo de Maria Martins.
A identidade da musa misteriosa só foi revelada em 2009, com o cruzamento de estudos anatômicos.
Iniciada em 1946, poucos anos depois do início do romance, a obra manteve a memória de Maria viva para Duchamp quando ela deixou os Estados Unidos, em 1948, mudando-se com a família para Paris e, posteriormente, para o Rio de Janeiro.
Em cartas enviadas à escultora, o francês mostra-se apaixonado e lamenta não poder tê-la para si.
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