O currículo que nenhum ser humano leu
Pertenço a uma geração que buscava o primeiro emprego com o currículo datilografado numa pasta e a esperança de ser recebido por alguém.
Podia dar errado, e quase sempre dava, mas do outro lado da mesa existia um rosto, uma voz, às vezes um conselho.
Na Universidade de Brasília, onde leciono há muitos anos, vejo meus alunos enfrentarem outro porteiro.
Ele não tem rosto, não dorme, não se cansa e jamais explica por que disse não.
O porteiro se chama sistema de rastreamento de candidatos, ATS na sigla em inglês.
Escaneia currículos em segundos, caça palavras-chave e decide quem segue e quem morre na triagem.
Desde 2022, o número de candidaturas por vaga dobrou em escala global, e as empresas responderam à avalanche entregando a primeira peneira às máquinas.
Já existem entrevistas inteiras conduzidas por vozes sintéticas de nomes femininos e simpáticos, que fazem perguntas de múltipla escolha e redigem relatórios para gerentes que talvez nunca leiam o candidato.
O LinkedIn oferece aos recrutadores um assistente de IA que promete examinar 81% menos perfis.
Oitenta e um por cento menos gente olhada por gente.
Escrever para a máquina Os jovens aprenderam a se defender do único jeito possível: escrevendo para a máquina.
Copiam o vocabulário dos anúncios, encaixam palavras-chave, apagam o que os torna singulares.
Assisto a essa mutação, ano após ano, com tristeza.
A biografia virou formulário otimizado.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistaforum.com.br — o conteúdo pertence a Revista Fórum.