O futebol e a naturalização da violência
Abel Ferreira não gostou da arbitragem de João Vitor Gobi em Mirassol. O juiz, a bem da verdade, fez um trabalho horroroso do começo ao fim. Acho que não existe Palmeirense no mundo que tenha gostado. Mas ser um adulto funcional é ter a capacidade de não transformar frustração em violência. Chutar o microfone da transmissão feito um bicho ferido não é aceitável. O que leva homens a reagirem nesses termos quando diante de alguma acontecimento incômodo? Nem todo Jurandir, mas sempre um Jurandir. Sempre sempre sempre um Jurandir.
Foi um Jurandir que se revoltou com a criança corintiana que ganhou uma camisa de Neymar. É sempre um Jurandir que chega em casa decepcionado com a derrota dos homens que usam a camisa de seu time e resolve sentar a porrada na mulher. São os Jurandir que a cada lateral mal marcado cercam o árbitro. Foi um Jurandir que decidiu passar o jogo inteiro xingando e aporrinhando qualquer marcação de Edina Alves. É um Jurandir que na saída do estádio soca o rival.
A violência masculina não pode ser naturalizada e seria preciso compreender todas as suas formas para que possamos combatê-la. Seria também preciso perceber que as formas escolhidas de combate são superficiais, inócuas, infantis, preguiçosas e convenientes. Punir com multa e suspensão - caso não tenham notado - não está resolvendo nada. Vamos começar a educar nossos Jurandir ou seguiremos apenas escrevendo textos contra eles?
Mas nem todo Jurandir pode dar pontapé em microfone. Se Marcão, o treinador do Fluminense, fizer isso o mundo cai na cabeça dele. Marcão é um homem negro e de homens negros a sociedade exige comportamento impecável, irretocável, irrepreensível. De pessoas negras essa sociedade racista espera apenas "sim, senhor" e "sim, senhora". Tudo mais é afronta. Imaginem Marcão agindo como um animal enlouquecido à beira do gramado.
Todas nós temos pelo menos um Jurandir que amamos profundamente nessa vida. Nem sempre ele é agente do caos, mas às vezes é ele o causador da violência e não queremos que essa lógica perversa siga sendo reproduzida rodada após rodada. Podemos concordar que apenas a pedagogia nos tirará desse lugar? Abel Ferreira é ídolo e ídolos são imitados. Dar bica descontrolada em microfones é convidar muitos a agirem do mesmo jeito. É assim tão difícil se controlar? O futebol não tem um problema de violência; a masculinidade tem. Vamos resolver esse horror ou apenas seguir fingindo que estamos horrorizados?
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