Musical 'Anunciação' cria um universo mágico ao traduzir em cena o estado de poesia das andanças de Alceu Valença
Natascha Falcão (à esquerda), Maria Pérola (ao centro) e Luiza Loroza personificam 'La belle de jour' em 'Anunciação - O musical de Alceu Valença' Anny Duarte & Eddy / Divulgação ♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO Título: Anunciação – O musical de Alceu Valença Idealização e direção geral: Miguel Colker Dramaturgia: Luiza Loroza e Duda Rios Direção artística: Duda Maia Direção musical: Ricco Viana Elenco: Beto Lemos, Duda Rios, Jef Lyrio, Juzé, Luiza Loroza, Maria Pérola, Natascha Falcão e Rafael Lorga Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro (RJ), onde ocupa o palco do Teatro Carlos Gomes em temporada que será encerrada com a sessão extra de segunda-feira, 17 de agosto, “Anunciação – O musical de Alceu Valença” surpreende positivamente ao se desviar da fórmula dos musicais biográficos com dramaturgia original criada a partir do cancioneiro do compositor pernambucano.
Ao encadear textos e cerca de 35 músicas em roteiro aberto com “Papagaio do futuro” (1972) e encerrado com “Estação da luz”, poetizando as andanças de Alceu ao longo dos 80 anos de vida, o musical concebe e ilumina um universo mágico que move narrativa que demora alguns minutos para engrenar, mas que, depois, envolve o espectador em teia da qual ele não quer mais se desprender.
Livre da obrigação de traçar o percurso cronológico da vida e obra do cantador nascido em 1º de julho de 1946 em São Bento do Una (PE), no agreste de Pernambuco, o roteiro geográfico de “Anunciação – O musical de Alceu Valença” embaralha Recife (PE), Olinda (PE) e Rio de Janeiro (RJ) sem delimitar tempo e espaço na narrativa de tom onírico, potencializado pelo caráter já naturalmente imagético das letras do compositor.
Dentro desse universo delirante, o diálogo amoroso entre Recife (PE) e Olinda (PE) – cidades personificadas como um casal nas peles dos atores Duda Rios e Natascha Falcão – sobressai como um dos grandes momentos da cena em que os oito atores se movimentam em conjunto, com expressiva linguagem corporal, enquanto portam e tocam os instrumentos dos quais extraem os sons que evocam o universo musical de Alceu, situado entre a aridez do sertão, o solo rural dos maracatus, a aspereza dos cantadores, a energia universal do rock e a folia dos Carnavais de Pernambuco.
Singular, a direção musical de Ricco Viana se harmoniza com os arranjos vocais de Beto Lemos sem fazer concessão ao público.
Em bom português: o musical sobre Alceu Valença está longe daquele tipo de espetáculo que provoca o canto da plateia como se o palco fosse um karaokê.
É teatro, com a alta qualidade que a diretora artística Duda Maia já havia mostrado em “Elza” (2018), musical sobre Elza Soares (1930 – 2022) que remexeu na já exaurida receita dos espetáculos biográficos.
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