O que precisa acontecer para os juros caírem no Brasil? Grandes mentes do BTG Pactual apontam o caminho
No evento Macro Day realizado pelo BTG Pactual nesta segunda-feira (31), especialistas do banco debateram inflação, juros e a relação com a situação fiscal; confira as principais conclusões
Quer ver os juros caírem de forma sustentável no Brasil? Esqueça as soluções mágicas ou os ataques às metas do Banco Central : o caminho depende de decisão política e, consequentemente, freio nos gastos públicos. A mensagem deu o tom do Macro Day, evento promovido pelo BTG Pactual nesta segunda-feira (31).
"O ajuste fiscal possível se cria", afirmou Mansueto Almeida, frisando que, diante de uma trajetória explosiva da dívida pública, o próximo governo terá como grande desafio controlar as despesas obrigatórias, mirando a redução dos juros.
Para demonstrar que medidas fiscais estruturantes funcionam, Mansueto Almeida lembrou a aprovação do teto de gastos no governo de Michel Temer, em 2016, criada em meio a uma recessão econômica e juros elevados.
Naquele momento, a implementação da regra ajudou a reancorar as expectativas do mercado, abrindo espaço para o Banco Central iniciar um ciclo de cortes de juros, com alívio sobre o custo da dívida público-federal.
Avaliando o quadro atual, Mansueto Almeida observou que o crescimento do gasto público federal superou a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos quatro anos, pressionando a inflação em um contexto de economia próxima do pleno emprego.
O economista ponderou que, embora o arcabouço fiscal tenha sido bem recebido pelo mercado no início de 2024, episódios posteriores aumentaram a desconfiança quanto à sua efetividade, gerando elevação do juro real de longo prazo.
Para contornar a dificuldade de desacelerar gastos permanentes, Mansueto Almeida indicou a necessidade de um plano coerente de controle de despesas obrigatórias que inclua mudanças nas regras de indexação do orçamento.
A exemplo do ocorrido com a regra do teto de gastos, ele ressaltou que a resposta do mercado seria rápida se o próximo governo apresentar um projeto claro para a contenção dessas despesas.
Em convergência com o diagnóstico fiscal, o pesquisador macroeconômico do BTG Pactual Samuel Pessôa avaliou que o principal entrave para a convergência da inflação e para a queda estrutural dos juros no Brasil é a condução da política fiscal, e não a meta de inflação ou o desenho do regime do Banco Central.
Pessôa explicou que o Brasil convive com juros elevados desde o Plano Real , mas apontou que as razões mudaram ao longo do tempo.
No início, sob a vigência do câmbio fixo, a taxa de juros alta compensava o risco de desvalorização; com o câmbio flutuante, entre 1999 e 2005, o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA (descontado o risco-país via CDS de cinco anos) chegou a ser próximo de zero, mostrando que os juros altos refletiam o risco.
“Quando o Brasil acumulou reservas, o risco despencou e os juros não caíram na mesma proporção. É aí que surge o enigma dos juros altos no Brasil”, disse Pessôa durante o evento.
O pesquisador acrescentou que, a partir desse ponto, a dinâmica passou a se assemelhar à de uma economia mais fechada, em que o excesso de demanda doméstica sobre a oferta local dita o patamar dos juros.
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