Todo navio traz consigo o seu naufrágio
Guardo na estante de casa, em Brasília, um exemplar gasto de O Princípio Responsabilidade, de Hans Jonas .
O filósofo alemão escreveu, em 1979, uma advertência que muitos leram como exagero de pessimista: quando o poder humano de destruir ultrapassa nossa capacidade de prever as consequências, a prudência se converte em dever.
Volto a esse livro sempre que a técnica corre mais depressa que a ética.
Voltei a ele agora, com um relatório científico aberto ao lado.
Uma comissão reunida pela revista The Lancet acaba de apresentar, em Berlim, na Cúpula Mundial da Saúde, o mapa dos dezessete maiores perigos para a saúde humana até 2100.
Lá estão a resistência aos antibióticos, o aquecimento global, a fome infantil, as pandemias.
No topo da pirâmide, isoladas na faixa das ameaças capazes de extinguir a espécie, aparecem duas invenções nossas: a guerra nuclear e o uso malicioso da inteligência artificial.
Os cavaleiros do apocalipse moderno saíram de laboratórios humanos.
O pensador Paul Virilio ensinou que inventar o navio é inventar o naufrágio.
A história das técnicas confirma a sentença com crueldade.
O Titanic zarpou com botes para pouco mais da metade das pessoas a bordo, e a lei britânica da época considerava isso suficiente.
A talidomida foi vendida a gestantes como calmante inofensivo e deixou mais de dez mil bebês com malformações.
A indústria do tabaco passou décadas financiando cientistas para semear a dúvida.
Em cada caso, alguém lucrou com a pressa, e outros pagaram com a própria carne.
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