Você está preparado para viver até os 100 anos?
A você, leitor e leitora de VEJA NEGÓCIOS, nossa saudação.
Shakespeare escreveu, em Como Gostais , que o mundo é um palco e que todos os homens e mulheres são atores, cada qual representando diferentes papéis ao longo das sete idades da vida.
Na última cena, o dramaturgo descreve a velhice como uma espécie de segunda infância, marcada pelo enfraquecimento dos sentidos e pelo progressivo esquecimento.
A imagem é bela, embora sombria, e revela como durante séculos imaginamos o envelhecimento: uma retirada gradual do palco, até que as cortinas finalmente se fechassem.
A ciência, no entanto, prolongou a peça, acrescentou novos atos e nos obrigou a rever o roteiro.
A coluna de hoje trata de um dos assuntos mais relevantes para o futuro da economia mundial: a chamada economia grisalha, expressão utilizada para reunir as atividades, necessidades e oportunidades relacionadas ao envelhecimento da população.
A longevidade é uma conquista extraordinária da humanidade, resultado dos avanços da medicina, da melhoria das condições sanitárias e do desenvolvimento econômico, mas, ao mesmo tempo que nos oferece a possibilidade de viver mais, impõe desafios que ainda não aprendemos a enfrentar adequadamente.
Esses desafios alcançam praticamente todos os setores.
Na tecnologia, será preciso pensar em como uma população mais velha utilizará aplicativos, smartphones, serviços bancários digitais e ferramentas de inteligência artificial, sem que a inovação se transforme em um novo fator de exclusão.
No campo jurídico, será necessário aperfeiçoar as leis de proteção às pessoas idosas e, sobretudo, fazer com que a Justiça responda com maior velocidade, pois o tempo de um processo judicial tem um significado muito diferente para quem já chegou aos 80 ou 90 anos.
Na saúde, o desafio será trabalhar preventivamente, preservar a autonomia e reduzir a incidência ou retardar a evolução de doenças cognitivas que comprometem a memória, diminuem a qualidade de vida e impõem custos elevados às famílias e à sociedade.
Há ainda uma contradição íntima que quase todos experimentamos.
Quando olhamos para nós mesmos a partir de nossa consciência, quase sempre nos sentimos mais jovens do que a imagem refletida no espelho.
O corpo registra a passagem do tempo de uma forma que a mente nem sempre reconhece, talvez porque continuemos carregando desejos, curiosidades, projetos e lembranças que não envelhecem na mesma velocidade.
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