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Venho aqui agradecer ao Bolsonaro . (Calma, leia até o fim.) Apesar de, dos 700 mil mortos na pandemia , estimar-se que uns 100 mil tenham sido pela recusa em comprar vacinas. Apesar de ter feito campanha contra o isolamento social e contra o uso de máscaras. De ter oferecido cloroquina à população e às emas do palácio. De ter tido todas as atitudes misóginas, racistas, de ter chamado líderes do mundo todo pra falar, sabendo que era mentira, que as urnas eletrônicas eram uma tramoia. Apesar de ter mantido acampamentos diante dos quartéis das forças armadas e de ter tentado dar um golpe militar: Bolsonaro, essa besta quadrada, me devolveu meu pai.
Uma década atrás, nosso querido Mario Prata mudou-se pra Floripa. Foi uma decisão acertada. Optou por um ostracismo cheio de ostras, de sol, diante de uma praia linda, longe do trânsito, da poluição, de pessoas que dão tiro nas outras por brigas de trânsito. Durante esses dez anos eu o visitava sempre que possível. (Mas nem sempre era.) Ele estava bronzeado, caminhava na praia, comia no delicioso quilo da Lucila, era amigo de todo mundo. Do funcionário dos correios às enfermeiras do SUS (onde, claro, tomou as vacinas). No mercado do Braulinho, estendiam tapete vermelho sempre que entrávamos. Meu pai sempre foi uma pessoa querida. Interiorano, no que isso tem de melhor.
O vizinho da porta direita era um argentino dono do "Churrasco ao vivo", melhor carne de lá. O da esquerda, Osório, era um psiquiatra a quem ele recorria pra qualquer problema de saúde. Ficou amigo do Gustavo Kuerten , que morava na mesma rua, e também do irmão dele. Foram ver juntos vários jogos do Avaí e do Figueirense na Ressacada.
A rua em que eles moravam chamava "Caminho do rei". Mudaram pra "Tertuliano de Brito Xavier". Meu pai, revoltado, conseguiu uma reunião com o Bornhausen, então líder do PFL e todo poderoso em Floripa. Um nome tão bonito mudado pra um tão feioso? Ele já tinha feito isso quando morávamos na Rua Dona Alice, uma vila do Itaim que virou Rua Briaxis. Briaxis?! Parece que era um escultor grego. Jamais saberemos quem foi Dona Alice, mas sou muito mais essa dona de nome lindo do que esse escultor de nome feio. O ator Othon Bastos e o grande Antonio Candido , também moradores da rua, foram com ele à assembleia legislativa. Deu em nada, como todas as lutas justas.
Enfim, meu pai foi feliz ali em Floripa, mas eu senti muita saudade. Aí veio o bolsonarismo. E o ninho deles, como se sabe, é por lá. Meu pai nunca foi exatamente um cara de esquerda, mas se você já leu livros na vida e escreveu outros tantos, só pode ser um comunista perigosíssimo cujo plano é acabar com a família burguesa e aplicar um intrincado projeto de transformar héteros em trans e dar maconha pra criancinhas. Foi o que pensaram em Floripa. Colaram na porta da casa do meu pai uma fita vermelha, tipo: aqui mora o comunista do prédio. Lembram da estrela amarela nos judeus? Pois é. Por isso sou grato ao Bolsonaro e seus cretinos seguidores. Mario Alberto Campos de Moraes Prata foi expulso de Floripa.
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