Trágico mundo do Discord (por José Sarney)
Deus me concedeu a graça de ter três filhos e uma esposa que me ajudou a conduzi-los pela vida, sem maiores dificuldades, senão as preocupações comuns a todos os pais para fazer com que um ser humano dê os primeiros passos pela vida e aprenda, assim, a mover-se por si mesmo.
Hoje tenho muitos netos e bisnetos e olho para o mundo com certo temor, pois na época em que criava meus filhos, embora com tantas atividades na carreira política e na vida literária, da qual nunca fiquei apartado, além de contar com Marly, sempre muito atenta às necessidades para a criação de um bom ser humano, tinha absoluta certeza de que, quando estavam em seus quartos, eles realmente ali se encontravam, e não em algum outro lugar do mundo, como é hoje a situação dos pais, que sofrem sem saber como lidar com esse novo passaporte que a humanidade descobriu de poder, a todo instante, se deslocar entre as nações sem gastar nada, apenas alguns toques no teclado ou até mesmo o som da própria voz.
Foi com muita perplexidade e apreensão que li a história da morte da jovem de 13 anos, na semana passada, na plataforma digital, que se soma a tantas outras que vêm acontecendo no mundo, lentamente, dentro de suas casas, já que sua morte foi consequência de outras tantas mortes que a criança fora tendo ao longo de dias de conversa com estranhos pelo computador, até chegar ao ponto de que essas tantas mortes se transformaram em uma, a definitiva.
E é esta última que nos choca.
É esta última pela qual sofremos.
É esta última que faz com que todos nós, ajudados pelos meios de comunicação, gritemos: nossas crianças pedem socorro! Façamos alguma coisa.
No entanto, passado o luto, continuamos tristes, mas voltamos a silenciar sobre o tema.
Mas este sofrimento que nos chocou continua pela vida afora nesses sofridos pais, nesses trágicos parentes, nos amigos, que nunca mais deixarão de olhar para uma tela de computador, celular ou tablet sem ver na hora a imagem de uma arma fatal.
Esses mágicos aparelhos, como tudo na vida, têm seus dois lados: a faca que corta o tenro legume mata; o bisturi que opera para salvar vida pode matar se nas mãos de pessoas inábeis.
Por isso, nós, adultos, devemos estar sempre atentos a essas crianças que ainda não descobriram que há flores belas que trazem o perfume da morte.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.metropoles.com — o conteúdo pertence a Metrópoles.