O Brasil vai investir em IA. Quem vai participar das escolhas?
O país prevê R$ 23 bilhões para inteligência artificial. A discussão decisiva é quem vai participar das escolhas, dos dados e da renda que essa infraestrutura pode gerar.
Para muita gente, inteligência artificial virou uma nova tela no celular. Ela resume um texto, melhora um currículo, cria uma imagem, traduz uma mensagem, organiza uma ideia de negócio. Nas periferias, ela também chegou assim. Alguém usa para montar uma apresentação, divulgar um serviço, estudar para uma prova, responder um cliente ou pensar em como vender mais.
Esse primeiro contato é importante. Só que ele não resolve o que vem depois.
Ter acesso a uma ferramenta não garante condição de transformá-la em trabalho, renda, conhecimento ou empresa. A diferença aparece quando chega a hora de usar um computador, ter internet estável, aprender com profundidade, testar um projeto, errar sem perder dinheiro e encontrar alguém disposto a contratar o que foi criado.
A Pesquisa TIC Domicílios 2025 deixa essa distância bem clara. O uso de ferramentas de IA generativa chega a 69% entre pessoas da classe A e cai para 16% nas classes D e E. Entre usuários com ensino superior, o índice é de 59%. Entre quem tem ensino fundamental, fica em 17%.
Esses números falam de acesso, mas também falam de poder. Quem usa a IA para ganhar tempo em uma tarefa já está alguns passos à frente de quem ainda tenta descobrir por onde começar. Quem tem equipamento, repertório, formação e rede profissional consegue transformar a ferramenta em produtividade. Quem depende de pacote de dados limitado e de um celular como único dispositivo encontra outra estrada.
O Brasil decidiu entrar nessa disputa. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. O projeto fala em infraestrutura, formação, serviços públicos, inovação empresarial e governança. É uma agenda grande, necessária e com potencial para mudar o país.
Agora vem a pergunta que precisa acompanhar cada investimento, quem vai ensinar a inteligência artificial a ler o Brasil real?
Essa pergunta não é filosófica. Ela chega nas escolhas práticas. Que problemas serão considerados prioritários? Quem participa da construção das bases de dados? Quem testa se uma solução funciona em contextos diferentes? Quem terá condições de abrir um negócio, prestar um serviço, desenvolver uma aplicação ou entrar no mercado de trabalho que está se formando?
Quando essas decisões ficam concentradas, a tecnologia tende a carregar o mesmo olhar concentrado. Ela responde bem a quem já foi ouvido, já foi medido, já teve acesso a infraestrutura e já participou da conversa. O restante do país aparece tarde, muitas vezes apenas como público de consumo ou como dado a ser coletado.
As periferias não podem entrar nessa história como cenário de teste. Muito menos como um conjunto de dados disponível para qualquer empresa capturar. Há gente empreendendo, criando, ensinando, resolvendo problemas de logística, comunicação, comércio, mobilidade e cuidado muito antes de a IA virar pauta de reunião. Esse conhecimento tem valor.
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