Repressão política aos Neder em MS atingiu família, reputação e destruiu negócio
Um breve olhar na galeria das vítimas da ditadura mostra que, além de torturar, matar e sumir com corpos, o aparato militar estruturado a partir do golpe de 1964 reprimiu com crueldade as famílias de opositores.
Em alguns casos, como os Petit e os Grabóis, na Guerrilha do Araguaia, nenhum deles escapou do extermínio premeditado.
Em outros, como a ferrenha perseguição aos irmãos Neder, em Campo Grande, pessoas respeitadas na sociedade foram presas, humilhadas em público, estigmatizadas pelo preconceito ideológico anticomunista e sofreram pesadas perdas, que vão da marginalização social patrocinada por setores da elite rural alinhados ao regime militar, a prejuízos econômicos.
“Foi uma nuvem escura sobre nossa família”, disse ao Campo Grande News o economista Henrique Neder, filho do advogado, empresário rural e colonizador Renê Neder, preso com os irmãos Alberto e Humberto.
Os três ficaram detidos no porão da antiga superintendência da NOB (Noroeste do Brasil), na esquina das avenidas Mato Grosso com Calógeras, que funcionou também, segundo o Comitê Memória, Verdade e Justiça do Estado, como centro de tortura clandestina na capital.
Alvos antes do golpe Os irmãos Neder entraram na mira dos órgãos de repressão bem antes da eclosão do golpe, em 31 de março de 1964.
Eles eram monitorados pela chamada Operação Tarrafa, que os listava como prioridade número 1 de prisão.
Dos três, o médico Alberto Neder era quem tinha ligações documentadas com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), embora praticamente toda a família fosse à época conhecida por suas posições políticas progressistas.
Nenhum dos perseguidos políticos perdeu tanto quanto o empresário Humberto Neder, que estava no auge de sua trajetória empresarial quando ela foi interrompida pela repressão.
Ele acabaria vivendo por mais de uma década, entre 1975 e 1985, exilado no Paraguai para proteger a família dos riscos impostos pela ditadura no período agudo dos anos de chumbo, que terminou com 434 mortos e desaparecidos políticos no país.
Numa ofensiva que atingiu opositores também em seu patrimônio, a história de Humberto se confunde com a empresa de telefonia de Campo Grande, a Teleoeste (Companhia Telefônica Oeste do Brasil), empreendimento que levou as telecomunicações a uma região ainda marcada pelo isolamento e pela precariedade da infraestrutura.
A história da família Neder está sendo resgatada pelo Ministério Público Federal no chamado Despacho Saneador 149/2026 e em uma Ação Civil Pública que pretende reconstituir graves violações em um universo de mais de mil casos de perseguição política no antigo Sul de Mato Grosso.
Se Alberto e Renê foram atingidos pela repressão em razão de suas trajetórias políticas, Humberto Neder aparece numa dimensão mais complexa da perseguição.
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