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O tempo, o espaço, a memória e o pecado capital em Zuenir Ventura

Correio Braziliense ·
O tempo, o espaço, a memória e o pecado capital em Zuenir Ventura

Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas redações mais importantes do Rio, entre as quais as de O Cruzeiro , Visão , Jornal do Brasil e O Globo . Durante a ditadura militar , ocupou um lugar destacado ponto de referência de resistência na imprensa carioca. Sob censura e repressão, Zuenir ajudou a manter abertas as possibilidades de crítica social, denúncia política e reflexão cultural. Não separava a defesa das liberdades da atenção aos direitos elementares do cidadão comum. Sua contribuição ao jornalismo combinava integridade política, curiosidade intelectual e sensibilidade diante do outro.

Zuenir Ventura falou sobre velhice e crises do Brasil em entrevista ao Correio

Em 1968: O Ano que Não Terminou (Nova Fronteira), encontrou no “tempo” a chave para compreender uma geração. O livro reconstitui a mobilização estudantil, a efervescência artística, a Passeata dos Cem Mil e o endurecimento da ditadura até o AI-5. Mas também uma ideia mais profunda: um ano pode acabar no calendário e continuar agindo na história. Ao recuperar personagens, conflitos e escolhas, Zuenir mostrou que as promessas de liberdade de 1968 e as marcas da repressão permaneciam presentes na democracia que viria depois. A memória, para ele, era uma forma de interrogar o presente.

Enquanto 1968 encontrou a medida do tempo, Cidade Partida (Companhia das Letras) desnudou a dimensão do “espaço” na vida carioca. Ao acompanhar o cotidiano de Vigário Geral depois da chacina de 1993, Zuenir expôs as fronteiras sociais do Rio de Janeiro. A cidade que se reconhecia nas praias, no samba e na celebração também erguia barreiras entre a favela e o asfalto. Seu olhar recusava a redução dos moradores das comunidades à violência que sofriam. Via na segregação, no preconceito e na ausência de direitos parte essencial do problema. Por isso, sua esperança de integração nascia da convivência e da escuta, práticas que o medo costuma destruir.

A “memória” mostra sua força em Chico Mendes: Crime e Castigo (Companhia das Letras). Nas reportagens sobre o assassinato do líder seringueiro e no retorno ao Acre anos depois, Zuenir acompanhou o crime, o julgamento e suas consequências. A morte de Chico Mendes não se encerrava na identificação dos assassinos. Revelava o conflito pela terra, a violência contra quem defendia a floresta e a fragilidade da Justiça diante dos poderosos. Ao voltar à história, o repórter recusou o esquecimento. Chico Mendes permanece vivíssimo na história. Suas reportagens sobre seu assassinato receberam os prêmios Esso e Vladimir Herzog.

Zuenir foi um grande cronista . Era um observador arguto dos gestos cotidianos, das mudanças de costumes, da política e da vida urbana A crônica de corpo presente lhe permitia aproximar o grande acontecimento da experiência comum, com humor e leveza, sem perder a convicção de que os detalhes ajudam a revelar as contradições de uma época. O repórter interessado nos traumas nacionais sabia tecer a reconstituição da história na conversa, no medo, no afeto e nas pequenas alterações da vida diária.

E o pecado capital? Inveja: Mal Secreto (Editora Objetiva) é um livraço.

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