Zuenir não terminou
Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, aos 95 anos.
Uma pneumonia silenciou o homem, não a voz.
Ela permanece em cada página na qual o Brasil se viu sem maquiagem, mas também sem desespero.
Zuenir sabia que a notícia mais dura poderia ser contada com delicadeza.
Tinha a rara coragem de encarar o abismo sem perder a confiança nas pessoas.
Nascido em Além Paraíba, nas Geraes, Zuenir foi pintor de paredes, contínuo, faxineiro e balconista.
Enquanto cursava Letras Neolatinas, tornou-se arquivista noturno da Tribuna da Imprensa.
Em 1956, faltava à redação alguém que escrevesse sobre Albert Camus.
Ofereceu-se.
O texto abriu-lhe a porta: a do jornalismo.
Esses seus primeiros ofícios não diminuem sua biografia; ao contrário, revelam a matéria de que ela foi feita.
O que torna um homem grande não é o primeiro crachá, mas aquilo que ele decide fazer com as mãos.
Nesta despedida, ninguém precisará lembrar que Zuenir pintou paredes, foi contínuo, faxineiro e balconista.
Como jornalista, porém, Zuenir Ventura pintou um mundo em que a liberdade fazia-se tão essencial quanto o oxigênio que respiramos; seguiu contínuo na intermitência obstinada com que abraçava ideais pacifistas; permaneceu faxineiro ao limpar das crônicas as areias do tempo, trazendo-lhe frescor de novos tempos, devolvendo-lhes incontáveis sopros de vida.
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