Quando o confronto vira voto, o país precisa se perguntar aonde quer chegar
A eleição de domingo deixou um sinal preocupante para o Brasil: discursos que exploram o preconceito, atacam movimentos pela igualdade e transformam diferenças em ameaças demonstraram força nas urnas.
O resultado exige uma reflexão que vai além de partidos e candidatos.
Que tipo de comportamento estamos premiando com o voto? E quais serão as consequências quando a hostilidade ganhar espaço nas decisões públicas? Em São Paulo, votações recordes deram destaque a candidaturas que fizeram dos ataques a pessoas trans e do enfrentamento ao feminismo marcas de sua atuação.
Essas posições não impediram o sucesso eleitoral.
Conviveram com ele e ganharam representação nos espaços onde serão discutidas leis, prioridades e políticas públicas.
Uma democracia comporta ideias conservadoras, progressistas, valores religiosos e diferentes concepções de família.
Essa diversidade exige respeito à dignidade das pessoas.
Defender uma convicção não dá a ninguém o direito de humilhar quem vive de outra maneira.
Divergir de um movimento também não dispensa o compromisso com os direitos de quem ele representa.
É preciso cuidado ao interpretar o voto.
Não se pode concluir que todos os eleitores dessas candidaturas foram movidos pelo preconceito.
Há identificação partidária, rejeição a governos, influência religiosa, desejo de renovação e outros motivos.
As urnas mostram a escolha, mas não explicam, sozinhas, todas as razões de quem escolheu.
Ainda assim, permanece uma questão incômoda: por que manifestações de intolerância deixaram de representar um obstáculo para parcelas expressivas do eleitorado? Quando a agressão passa a ser aceita como sinal de coragem e a humilhação é confundida com autenticidade, o debate público perde um limite essencial.
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