Operação complica Flávio, que não explicou gastos com milhões de Vorcaro
Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O bolsonarismo costuma terceirizar o pânico moral. O problema começa quando a conta deixa de bater à porta dos outros e resolve tocar a campainha de casa.
A terceira fase da Operação Carbono Oculto , deflagrada pelo Gaeco e pela Receita Federal, colocou sob os holofotes uma engrenagem bilionária suspeita de lavagem de dinheiro que, segundo as investigações, cruza personagens e interesses ligados à família Bolsonaro. No centro desse enredo aparece a Entre Investimentos, ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, apontada como peça de uma estrutura que teria misturado recursos de origem criminosa com operações envolvendo o Banco Master.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan , classificou hoje a empresa como uma entidade-chave para compreender a lavagem de dinheiro no sistema financeiro. A Carbono Oculto vem investigando, há um ano, a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis que usaria fundos na Faria Lima.
Recursos ligados a essa estrutura ajudaram a financiar Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonarom interpretado por Jim Caviezel de peruca.
De acordo com a delação de Mineiro, ele enviou cerca de US$ 12 milhões (mais de R$ 60 milhões) ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, a pedido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O fundo seria administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. O repasse teria ocorrido depois de cobranças de Flávio Bolsonaro, que chamava Vorcaro de irmão.
A Polícia Federal apura se parte desses recursos pode ter servido para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro no Texas enquanto ele atuava politicamente contra decisões e instituições brasileiras.
A ironia quase se escreve sozinha. Parte da militância bolsonarista, estimulada pelo próprio Flávio, celebra a possibilidade de Donald Trump enquadrar organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho na categoria de terrorismo. Só que dinheiro não ganha atestado ideológico ao atravessar uma fronteira.
Se recursos contaminados pelo crime organizado chegaram a estruturas ligadas à família Bolsonaro nos Estados Unidos, o discurso da "guerra ao crime" pode acabar esbarrando naquele que se colocam como os justiceiros.
Flávio sustenta que uma perícia privada comprovaria a regularidade do financiamento da produção cinematográfica. O problema é que a produtora internacional resiste a fornecer dados bancários às autoridades, deixando sem transparência uma parcela expressiva dos custos do filme.
É nesse ponto que a retórica começa a tropeçar nos próprios cadarços. Durante anos, o bolsonarismo construiu sua identidade política sobre acusações de corrupção, criminalidade e degeneração moral dos adversários. Transformou suspeita em sentença quando o personagem estava do outro lado da trincheira. Com os indícios rondando a própria casa, porém, eis que surge a indignação seletiva.
Quando a hipocrisia coloca terno, ajeita a gravata e sobe ao palanque para dar aulas de honestidade, há uma providência bastante simples. Seguir o dinheiro.
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