Oposição argentina enviará missão ao Brasil para se descolar de Milei
No próximo dia 31 de agosto, uma missão de pelo menos dez parlamentares argentinos que integram os principais partidos da oposição ao governo do presidente Javier Milei viajarão a Brasília com o objetivo de abrir um canal de diplomacia parlamentar entre os dois países, mergulhados numa delicada e inédita crise diplomática.
Segundo confirmou à coluna o deputado Nicolás Massot, do partido Províncias Unidas e membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara argentina, a missão tem como objetivo ratificar ao Brasil e a seu Congresso que partidos que representam 60% das bancadas do Parlamento argentino não estão engajados na disputa política desencadeada pelo presidente Milei contra o governo e o presidente Lula.
A bancada do governista A Liberdade Avança (LLA, na sigla em espanhol) foi convidada, mas, alinhada plenamente com o chefe de Estado, não participará da visita. Massot disse ter informado o chanceler argentino Pablo Quirno sobre a iniciativa, mas não obteve resposta. Ambos trabalharam juntos no governo do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019).
O gesto dos parlamentares argentinos mostra que os ataques de Milei ao presidente Lula não contam com respaldo interno. Apenas o partido do presidente e seus parceiros políticos mais próximos respaldam Milei em sua cruzada contra o presidente brasileiro. O governo Lula obteve o apoio de diversos setores da sociedade argentina, entre eles o empresariado, que teme um impacto negativo no comércio bilateral.
A missão parlamentar é a primeira iniciativa política relevante contra a atitude do chefe de Estado argentino. Em Brasília, a missão será recebida pelo senador Nelsinho Trad, do PSD, que preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, cargo que ocupa pela segunda vez. Os parlamentares argentinos também devem ter reuniões no Itamaraty.
A crise bilateral começou quando o presidente argentino aproveitou sua participação na convenção nacional do Partido Liberal (PL), na qual foi confirmada a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, no final de julho, em São Paulo, para ofender o presidente brasileiro. Milei se referiu a Lula como "o presidiário", e também agrediu verbalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, chamado pelo argentino de "lixo careca".
A atitude do chefe de Estado argentino levou o governo brasileiro a chamar seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. A medida tem enorme peso no manual da diplomacia profissional — algo que importa pouco ao atual presidente argentino — e significa uma expressão de enorme desagrado por parte do país que chama seu embaixador.
Nos primeiros dias de agosto, as águas pareciam ter se acalmado e o governo Lula pretendia enviar Bitelli novamente para Buenos Aires, mas Milei voltou a atacar Lula em entrevistas a meios locais argentinos. Foi decidido manter Bitelli no Brasil, provavelmente até depois das eleições presidenciais e, também, reduzir o nível das relações.
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