Numa eventual presidência de Flávio, Jair será rei sem trono
Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Renata Lo Prete tentou uma, duas, três vezes. Mas não conseguiu arrancar de Flávio Bolsonaro uma resposta categórica sobre o papel que o pai teria num eventual governo do filho. O brasileiro ficou autorizado a suspeitar que o candidato foi mandado às urnas como segundo escalão da família Bolsonaro. Num hipotético governo de Flávio, o verdadeiro chefe de Estado será Jair.
"Se vencer a eleição, seu pai terá cargo no governo?", indagou Lo Prete. A jornalista foi específica: "Qual?" Flávio passou a falar da condenação do pai. Chamou o julgamento de "farsa". E classificou como "golpe da Disney" a trama que levou à prisão de Bolsonaro.
A entrevistadora tentou novamente: "Se o senhor vencer a eleição, seu pai vai ter cargo no governo?". Flávio grudou os olhos na câmera: "Meu pai vai ser você, vai ser o povo brasileiro. É pra você que eu vou trabalhar".
O candidato esticou o blá-blá-blá: "Tenho o previlégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, tenho um dentro de casa, de confiança. Sou privilegiado por isso, mas nunca tratou de cargo comigo."
Lo Prete não se deu por vencida: "Mas o senhor cogita nomear? Daria um cargo para o seu pai no governo?". Pela terceira vez, Flávio Bolsonaro desconversou: "Ele nunca tratou disso comigo. Não está no radar". Numa campanha eleitoral, nunca é uma palavra perigosa. Os candidatos deveriam sempre se lembrar de nunca usá-la.
O filho de Bolsonaro é candidato não a presidente, mas a marionete. Como ventríloquo, seu pai desfruta de privilégios eleitorais que seriam inacessíveis a um preso inelegível — com uma vantagem que nenhum candidato à reeleição jamais teve: a de participar da campanha como sujeito oculto. A presença em sabatinas e debates seria um rebaixamento para o capitão.
Uma eventual presidência de Flávio não proporcionaria ao Brasil a experiência de ser presidido por um Bolsonaro hipoteticamente moderado. Na prática, seria como se Jair Bolsonaro obtivesse um segundo mandato. Seria um rei sem trono. O mito viraria folclore. Nem precisaria de cargos para exercer seu poder presumido.
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