Zuenir Ventura, Vigário Geral e a cidade que ainda precisa se encontrar
Conheci Zuenir Ventura em 1993, em Vigário Geral . A comunidade ainda vivia o luto pela chacina que assassinara 21 moradores. Naquele domingo, estávamos ali com o Grupo Cultural AfroReggae para realizar uma atividade que durou o dia inteiro. Havia crianças, música e o esforço de construir, junto com os moradores, um espaço de convivência em meio à dor. Era o AfroReggae em seus primórdios, e eu fazia parte daquela organização.
Eu também integrava o Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, o CEAP, onde atuava na articulação da juventude negra. Estavam conosco o saudoso Jorge Damião, outro diretor do CEAP, José Júnior, Teco Rastafari, Mônica, Arcélio Farias, Marcelo Yuka e tantos outros companheiros daquela caminhada. José Júnior e Teco Rastafari estavam entre os criadores do AfroReggae e seguem ligados à sua direção. Marcelo Yuka, também saudoso, seria conhecido como um dos criadores e fundadores da banda O Rappa. Naquele tempo, eu era o Big Richard, um jovem do hip-hop que encontrava na cultura uma forma de organização e luta. Zuenir também estava lá . Foi assim, dividindo um dia de trabalho em Vigário Geral, que nossas histórias se cruzaram.
Ao final da atividade, o comando local da Polícia Militar decidiu interromper o evento. Até então, tudo transcorria de forma tranquila. A polícia entrou na comunidade e nos tratou como suspeitos, como se a presença de jovens negros organizando cultura e convivendo com os moradores bastasse para nos associar ao crime. Houve tiros, repressão e medo. Saímos dali com a ajuda de moradores que, mesmo expostos à violência, nos protegeram.
Guardo uma lembrança muito nítida daquele contraste. Durante o dia, tínhamos visto o que uma comunidade era capaz de fazer por suas crianças e por sua própria vida coletiva. Ao anoitecer, vimos a facilidade com que uma ação cultural podia ser tratada como ameaça. Para nós, jovens negros, aquela abordagem tinha um significado conhecido: a suspeita chegava antes de qualquer pergunta.
Escrevi sobre o episódio no AfroReggae Notícias , jornal publicado pelo grupo. A imprensa carioca também registrou o ocorrido. Mais tarde, Zuenir o retratou em Cidade partida , livro que considero um clássico. Nas páginas da obra, ele registrou também minha atuação na juventude negra e no hip-hop naquele período. Ver aquela experiência narrada por alguém que estivera conosco tinha um peso especial. Zuenir conhecia a cena, as pessoas e o trabalho que tentávamos construir.
O título de seu livro continuou a me acompanhar. A cidade partida estava diante de nós naquele domingo: uma cidade na qual a entrada de um grupo cultural numa favela podia despertar desconfiança policial, enquanto os moradores precisavam proteger quem tinha ido até lá para estar com eles. A chacina já havia mostrado, da maneira mais cruel, o valor desigual atribuído às vidas no Rio de Janeiro. O que vivemos depois expunha outra parte dessa mesma lógica, presente até em um dia dedicado à música e às crianças.
A morte de Zuenir, em 22 de setembro, me devolve àquele encontro. Penso no repórter que foi a Vigário Geral e acompanhou de perto seus moradores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.