O “vira-voto” e a política como disputa de consciência
A vitória de Lula não pode ser compreendida apenas como resultado da rejeição ao bolsonarismo, mas como expressão de uma mobilização popular que encontrou, na proteção das pautas progressistas, uma razão positiva para disputar o voto.
Os números eleitorais são claros: Lula conquistou aproximadamente 10,4 milhões de votos adicionais entre os dois turnos, absorvendo o equivalente a três de cada quatro novos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com apenas um.
A redução da abstenção, de aproximadamente 3 milhões de eleitores, corresponde a menos de um terço do crescimento eleitoral, ainda assim não é possível mensurar para onde foram exatamente esses votos.
O que se sabe, ao certo, é que Lula conquistou, majoritariamente, votos que antes pertenciam aos demais candidatos no primeiro turno, o que pode incluir, inclusive, votos de Flávio Bolsonaro.
Com absoluta certeza, estamos diante de um fenômeno que se chama “virar voto” .
Força popular que virou o voto Lula não venceu apesar das pautas progressistas, mas também porque a militância reencontrou nelas uma razão para transformar a indignação em consciência, a consciência em mobilização e a mobilização em vitória eleitoral.
O resultado das urnas, sobretudo a extraordinária inflexão observada entre os dois turnos, enaltece a capacidade de uma militância mobilizada de intervir na formação da vontade popular, disputar a consciência social e alterar uma correlação de forças que parecia desfavorável.
O que se verificou foi uma alteração substancial na distribuição dos votos, precisamente quando a militância progressista assumiu, com intensidade renovada, a missão de convencer, dialogar e mobilizar.
Nas ruas, universidades, locais de trabalho, comunidades e espaços digitais, multiplicaram-se iniciativas destinadas a enfrentar a naturalização das desigualdades, questionar os pressupostos do discurso conservador e demonstrar que determinadas escolhas eleitorais produzem consequências concretas sobre a existência material da população.
A campanha deixou de ser percebida como uma tarefa burocrática de defesa de governo e passou a representar uma disputa sobre os limites do próprio futuro nacional.
O eleitor que não se identificava integralmente com a esquerda pôde reconhecer que votar em Lula não exigia aderir a uma identidade partidária total, exigia escolher entre projetos com consequências muito diferentes.
O voto progressista não se expandiu porque todas as resistências desapareceram, mas porque a militância conseguiu organizar uma frente suficientemente ampla para acolher o voto crítico, o voto envergonhado, o voto útil e até o voto arrependido .
A democracia não é feita apenas de adesões puras, em momentos decisivos, ela também se faz de escolhas contra perigos concretos.
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