O crime nos trinques
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com os quilos de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.
A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.
É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.
Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.
Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.
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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.