Como verba de wi-fi de SP virou alvo de suspeita no caso 'Dark Horse'
As investigações sobre o programa de internet gratuita da Prefeitura de São Paulo, reveladas hoje após o ministro Flávio Dino retirar o sigilo de documentos da PolÃcia Civil, expuseram uma rede de suspeitas sobre o uso de dinheiro público na produção da cinebiografia "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A administração Ricardo Nunes (MDB) contratou por R$ 157 milhões o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama. Sem experiência no setor de telecomunicações, a organização subcontratou a empresa Ultra IP para realizar o serviço técnico, mas a parceria desmoronou em meio a acusações mútuas de desvios e boicotes. O caso agora é investigado pela PolÃcia Federal, que tenta descobrir se a verba do wi-fi público foi desviada para financiar a produção cinematográfica.
A prefeitura contratou uma ONG ligada à produtora do filme "Dark Horse" para viabilizar o programa de internet gratuita nas periferias. O ICB atuava em feiras literárias e eventos religiosos quando assumiu a gestão de um contrato de R$ 157 milhões. A execução do projeto foi repassada à Ultra IP, que assumiu a tarefa de instalar e operar as antenas nas comunidades da capital, um arranjo que chegou aos tribunais em meio a acusações de calote e boicote.
O valor do contrato subiu para cerca de R$ 157 milhões após termos aditivos. O acordo inicial, de junho de 2024, previa R$ 108 milhões por 12 meses para 5.000 antenas de internet gratuita. Em dezembro de 2025, um termo aditivo de R$ 49,1 milhões ampliou a verba e estendeu o prazo até o final de 2026.
A PolÃcia Federal investiga se a triangulação financeira abasteceu a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo o inquérito, parte dos repasses feitos pela prefeitura ao ICB teria sido entregue à Academia Nacional de Cultura. A ANC é outra entidade sem fins lucrativos que também seria diretamente ligada à Karina Ferreira da Gama. De acordo com a PF, esse esquema de triangulação financeira foi desenhado para ocultar a origem pública do dinheiro, movimentando ao menos R$ 6,17 milhões.
A PolÃcia Civil recalculou a estimativa do prejuÃzo financeiro ao longo dos meses. A representação estadual estimava enriquecimento indevido de R$ 26 milhões em junho de 2026, cifra que a PolÃcia Federal atualizou para mais de R$ 27 milhões na fase perante o STF.
A polÃcia identificou notas fiscais com indÃcios de que documentos foram simulados. Os agentes localizaram faturas emitidas em sequência numérica imediata, com a mesma data e prazos idênticos de vencimento, sem comprovação do serviço. Já a terceirizada Complexys Soluções Integradas Ltda cancelou uma nota fiscal de R$ 2 milhões no sistema da prefeitura no mesmo dia de sua emissão.
A Ultra IP não entregou todos os pontos de internet contratados. A terceirizada afirma que mantinha ativos 2.047 dos 5.000 pontos prometidos pela ICB até o começo de 2025, segundo o inquérito.
A empresa de Karina acusa a subcontratada de sabotagem e retenção de valores.
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