A margem da história onde a esperança ainda vive
Existem três causas pelas quais eu entregaria, sem arrependimento, os anos que ainda me restam: a justiça, o amor e a liberdade.
Penso nelas com a serenidade de quem já viveu bastante para compreender que uma existência pode atravessar décadas inteiras sem jamais experimentar a grandeza de servir a alguma coisa que ultrapasse seus próprios interesses.
Durante este último ano, acompanhei, como jornalista, acontecimentos que me fizeram revisitar antigas convicções sobre a natureza humana.
Escrevi diariamente, concedi entrevistas, participei de debates e conversei com centenas de pessoas.
Entretanto, o que permaneceu comigo foram certos encontros, determinados gestos, algumas palavras pronunciadas com a voz embargada por quem descobria, quase surpreso, que ainda possuía coragem para transformar a própria vida.
Vi pessoas idosas caminhando ao lado de jovens que poderiam ser seus netos.
Imaginei quantas dores, despedidas e desilusões aquelas mãos enrugadas já haviam conhecido.
E me comoveu perceber que, apesar de tudo, continuavam disponíveis para construir um mundo que provavelmente não chegariam a conhecer por inteiro.
Existe uma generosidade extraordinária em plantar árvores sabendo que outros descansarão à sua sombra.
Sócrates compreendeu que uma vida sem exame interior perde sua dimensão mais preciosa.
Marco Aurélio, mesmo cercado pelas inquietações de um império, procurava preservar a responsabilidade moral diante dos semelhantes.
Kant reconheceu em cada pessoa uma dignidade que jamais deveria ser negociada.
Bertrand Russell, atravessando guerras e perseguições, insistiu na liberdade de pensar e na coragem de amar a humanidade apesar de suas terríveis contradições.
Esses pensadores me acompanharam enquanto observava uma sociedade fatigada, dividida por ressentimentos, habituada a desconfiar até mesmo da bondade.
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