O risco que a Globo corre com Flávio Bolsonaro no JN esta noite
A rodada de sabatinas com os postulantes ao Palácio do Planalto nos estúdios da TV Globo atingirá seu momento de maior inflexão analítica e tensão institucional nesta sexta-feira (28).
O que se espera que seja um exercício clássico de escrutínio jornalístico pode se transformar num perigoso impasse de credibilidade para a maior emissora de televisão do país, impulsionada por uma possível disparidade explícita entre a postura inquisitória adotada contra o candidato de esquerda à reeleição e a conduta que se espera em relação ao seu principal opositor de extrema direita.
Na noite de quinta-feira (27), o presidente da República e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve no centro do cenário sob a condução dos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos.
Ao longo de 40 minutos ininterruptos, o espectador assistiu a um verdadeiro bombardeio sem precedentes, marcado por uma abordagem ostensivamente grosseira, deselegante e agressiva por parte dos entrevistadores.
Embora a dureza e a incisividade sejam atributos desejados e necessários em sabatinas presidenciais, o padrão exibido no Jornal Nacional rompeu a barreira da cobrança firme para descambar em um espetáculo de parcialidade.
A sensação de que a bancada tinha lado e operava como um tribunal sumário não ficou restrita à militância: a reação de indignação foi compartilhada e verbalizada publicamente por medalhões da imprensa e ex-profissionais de longa data da própria Globo, atônitos com o cerco e o tom de Santa Inquisição direcionados ao atual chefe do Executivo.
Para além da truculência do formato, o desenho da pauta expôs uma deformação editorial conturbada, na qual temas vitais para o país foram sumariamente escanteados para dar lugar a assuntos supervalorizados e deslocados da realidade política nacional.
Praticamente metade do tempo de exibição foi monopolizado por perguntas ríspidas focadas no ex-chefe de gabinete da Presidência, o servidor conhecido como Marcola, e no filho do mandatário, Fábio Luís Lula da Silva.
O caso envolvendo o filho do presidente, que a mídia hegemônica convencionou pejorativamente chamar de “Lulinha”, vem sofrendo um nítido superdimensionamento analítico que afronta a lógica dos fatos.
Primeiro, porque Fábio Luís tem 52 anos de idade, é um homem feito que saiu da casa dos pais há três décadas e responde de forma inteiramente autônoma por suas escolhas pessoais e profissionais.
Segundo, e mais grave, porque a controvérsia sequer o envolve diretamente em atos irregulares: a apuração gravita em torno de diálogos mantidos por terceiros com uma interlocutora que teria interesse em atuar como lobista.
O ato de fazer lobby ou conversar sobre intenções comerciais não configura crime na legislação.
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