A figura do pai
Doutora em economia e professora do PPGE/UFABC, atua como presidente da GeFam (Sociedade de Economia da Família e do Gênero)
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A música "Rockabye", lançada pelo grupo britânico Clean Bandit em outubro de 2016, é uma das minhas favoritas não só pela melodia, mas também pela letra. A música, escrita por Jack Patterson e Ina Wroldsen, retrata a realidade de uma mãe solo que faz de tudo para sustentar e proteger seu filho. Ina, compositora norueguesa, também é mãe solo.
A realidade brasileira é muito diferente da norueguesa, mas tenho certeza de que ser mãe solo é difícil em qualquer lugar. O trabalho de cuidado é contínuo, muito demandante e, por vezes, exaustivo. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua para o 1º trimestre de 2026 , realizada pelo IBGE, entre as mulheres com mais de 18 anos, aproximadamente 87% dos lares monoparentais são chefiados por mães. Quase 67% dessas mulheres são pretas ou pardas. Entre as mães solo , 63% estão ocupadas. No entanto, 45% estão na informalidade e a renda média corresponde a apenas 80% da renda das mulheres ocupadas com mais de 18 anos.
Essa proporção de quase 90%, no entanto, não significa que todas essas mulheres criem seus filhos sem a participação dos pais. Dado o formato da pesquisa, não sabemos se o pai é presente, se contribui financeiramente, se está vivo ou sequer consta no registro da criança. Além disso, a pesquisa não fornece informações sobre o estado civil das pessoas. Assim, não sabemos se a mãe é solteira, divorciada ou viúva. A ausência dessas informações prejudica a elaboração de um retrato mais fiel da população, inclusive das diferentes realidades por trás da maternidade solo.
Uma dimensão da ausência paterna , no entanto, pode ser observada nos registros de nascimento. A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) disponibiliza, no Portal da Transparência, a lista de nascidos em cujos registros constam apenas o nome da mãe. Dos 27 milhões de nascimentos entre 2016 e 2025, 6% se enquadram nessa categoria. São famílias em que a criança sequer tem o reconhecimento do próprio genitor . Onde estão esses pais? A presença de ambos os genitores é relevante para a criação e a formação das crianças, exceto em casos de violência doméstica .
Há evidências de que crescer numa família monoparental pode estar associado a efeitos negativos no bem-estar emocional , no desenvolvimento cognitivo e no desempenho escolar das crianças. A sociedade culpabiliza frequentemente a mãe e pergunta o que ela fez ou deixou de fazer, mas raramente pergunta sobre o pai. Essas mulheres muitas vezes se ausentam por longas horas porque precisam trabalhar e, ao mesmo tempo, arcam com grande parte das responsabilidades de cuidado . Elas precisam de apoio.
Diante disso, as políticas públicas são relevantes para apoiar essas mães e seus filhos, inclusive no acesso à saúde e à educação. A educação integral , em particular, pode apoiar mães com menos recursos na oferta de atividades complementares para seus filhos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.