Em ano par, é palanque. Em ano ímpar, é invisibilidade
A campanha eleitoral começou esta semana. E, com ela, o fenômeno mais previsível da política brasileira: a redescoberta repentina da periferia.
De uma hora para outra, a favela vira o território mais disputado do país. Candidato subindo o beco, equipe de marketing acelerando a campanha "territorial", agência que acabou de descobrir a linguagem das periferias. Todo mundo quer falar com ela.
A favela tem calendário, e todo mundo conhece. Em ano par, é palanque. Em ano ímpar, é invisibilidade. Em agosto, é centro do discurso. Em novembro, volta a ser problema na planilha de urbanismo. Chega o romance. Não chega a continuidade.
O teste de coerência é simples, uma pergunta só, quem estava lá nos anos ímpares?
Não quem posta foto no beco. Quem estava contratando gente do território, comprando do comércio local, trabalhando com comunicadores locais, investindo quando não havia voto em disputa. É esse filtro que separa construção de oportunismo. E a periferia, ao contrário do que muitos supõem, aprendeu a aplicar esse filtro também.
Os dados explicam o apetite. O Censo 2022 mapeou 12.348 favelas e comunidades urbanas, onde vivem 16,4 milhões de pessoas, 8,1% da população. Uma população mais jovem (idade mediana de 30 anos, contra 35 no país) e mais negra (72,9% se declaram pretas ou pardas), que movimenta cerca de R$ 330 bilhões por ano, segundo o Sebrae, volume de consumo maior que o de 22 estados e que o PIB de Bolívia e Paraguai. O Brasil real também é um mercado, e dos grandes. É natural que, em época de eleição, todo mundo queira se aproximar dele. O que separa seriedade de oportunismo é o que sobra depois que a temporada acaba.
Isso vale para a política e para as marcas. O marketing eleitoral e o marketing oportunista são irmãos. A marca que chega em agosto com campanha ambientada na favela e vai embora em novembro faz o mesmo movimento do candidato que só sobe o beco em tempo de campanha, usa o território como cenário. Reputação não se constrói em temporada, mas com presença.
Construir com a periferia exige método, escuta antes de verba, gente do território na mesa, não só na imagem. Retorno concreto para a comunidade, não apenas resultado no slide. É isso que chamo de inteligência periférica: leitura do território feita por quem vive nele, transformando vivência em dado, dado em estratégia, estratégia em valor compartilhado. Quando só um lado é beneficiado, ninguém construiu.
O eleitorado desta eleição não é o mesmo de outras. São 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar, e a periferia comparece. Dados da Redes da Maré mostram que a favela vota mais que a média da cidade, teve abstenção de 28% no território, contra 30,58% no conjunto do Rio, nas eleições municipais de 2024. A periferia consome, empreende, cria e lê o país com a nitidez de quem sente a economia primeiro, quando o preço sobe, quando o crédito aperta, quando a chuva vem, chega lá antes. Hoje 35,6% dos moradores de favela já têm negócio próprio, e 38% sonham em abrir um, mais que o dobro dos 16% que miram concurso. Quem trata esse território como depósito de votos comete um erro de análise e de respeito.
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