Cinco anos após a queda de Cabul, Afeganistão enfrenta crise humanitária e repressão às mulheres
Em 15 de agosto de 2021, o Talibã tomava Cabul, a capital afegã, após a fuga repentina do então presidente, Ashraf Ghani. Os norte-americanos, presentes há mais de duas décadas no país para combater a organização jihadista Al-Qaeda e derrubar o Talibã, deixaram o Afeganistão às pressas. De lá para cá, a situação só se deteriorou: mais da metade da população vive na pobreza, e as mulheres perderam o direito de estudar, trabalhar e ter acesso aos serviços de saúde.
Logo após a tomada de Cabul, os soldados americanos mobilizaram suas tropas para garantir a retirada de seus cidadãos que ainda estavam no país. Nas ruas, o cenário foi de caos. Os bancos foram tomados pela multidão, e os afegãos correram para os aeroportos. Muitos tentaram até fugir agarrados aos trens de pouso dos aviões. A embaixada americana foi evacuada por helicóptero, e muitos afegãos que haviam ajudado o Exército dos Estados Unidos foram deixados para trás.
Para o Talibã , a operação foi vista como uma vitória. "Avisamos a qualquer possível invasor: quem olhar para o Afeganistão com más intenções enfrentará o mesmo que os Estados Unidos enfrentaram hoje", disse na época o porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid.
Logo, o país foi abandonado pelos EUA e pelo Ocidente. Após a tomada do poder pelo Talibã, o Afeganistão , que até então era financiado em 75% pela comunidade internacional, perdeu todos esses recursos. Em princípio, os governos ocidentais afirmaram que iriam continuar apoiando o país. Do então primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, ao ex-presidente dos EUA, Joe Biden, o discurso era o mesmo, em 2021: continuar defendendo os direitos fundamentais do povo afegão.
Mas os Estados Unidos , traumatizados pela derrota, decidiram isolar o Afeganistão, e os países europeus seguiram o mesmo caminho. As sanções contra o regime se tornaram mais severas, e os recursos destinados à missão das Nações Unidas no país, voltados para ajudar a população, diminuíram drasticamente. Com isso, os efeitos para a população foram devastadores: 74% dos afegãos não conseguem atender às suas necessidades básicas, e 95% da população vive abaixo da linha da pobreza.
Para o especialista em relações internacionais Mostafa Modasser, os talibãs são responsáveis por crises de dimensão internacional.
"A primeira, e a mais importante crise, diz respeito à presença de grupos terroristas dentro do Afeganistão. A segunda envolve tensões e disputas fronteiriças. A terceira é o tráfico de armas, especialmente aquelas deixadas no país após a retirada das forças da Otan e dos Estados Unidos. A quarta diz respeito às instituições internacionais. E a quinta é a crise migratória", enumerou.
Desde a chegada dos talibãs ao poder até hoje, milhões de afegãos emigraram, de forma massiva e muitas vezes ilegal, para países vizinhos, para os Estados Unidos e para a Europa. No entanto, 2,7 milhões de afegãos foram obrigados a retornar ao país, agravando a crise econômica e humanitária.
Para o analista político Dawood Erfan, "o conjunto dessas crises transformou o país em um 'Estado falido'. Antes da chegada do Talibã ao poder, as urnas, ao menos na aparência, permitiam definir a transferência de poder.
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