Imagens que constroem mundos: 25 anos após o 11 de setembro
Era uma terça-feira. Eu estava no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, para uma reunião do Grupo de Antropologia Visual, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ambos coordenados por Sylvia Caiuby Novaes, quando Mariana Vanzolini nos avisou sobre o que estava acontecendo. Foi impactante para todos nós que estávamos ali. Quando ouvi as primeiras notícias atribuindo os atentados a árabes/muçulmanos, liguei imediatamente para uma amiga da comunidade islâmica.
Eu havia depositado minha dissertação de mestrado poucos dias antes, e a defesa estava marcada para 2 de outubro. Naquele momento, tive a sensação de que tudo o que eu havia escrito talvez já não valesse para muita coisa. Ledo engano. Imagem oculta: reflexões sobre a relação entre os muçulmanos e a imagem fotográfica, minha dissertação, tratava justamente das fotografias que os muçulmanos produziam de si mesmos , das imagens por meio das quais se apresentavam e construíam suas próprias narrativas, assim como das formas pelas quais a imprensa e eu mesma, como pesquisadora, os representava. Este tema seria ainda mais importante para direcionar as minhas pesquisas futuras.
De repente, o mundo passaria a produzir outras imagens sobre os muçulmanos e sobre o Islam. E uma delas se imporia com uma força devastadora: a imagem do terror.
Minha pesquisa e as de outros colegas antropólogos foram profundamente impactadas. Mudou também nossa forma de estar no ambiente acadêmico. Passamos a receber e-mails, mensagens e contatos, alguns indiretos, vindos de diferentes setores. Certa vez, conversando com um colega que pesquisava o mesmo tema, comparamos as mensagens que estávamos recebendo. Chegavam, inclusive, propostas para estudar nos Estados Unidos, com bolsas e bons financiamentos para pesquisar os muçulmanos.
Há 25 anos, os muçulmanos se tornaram um dos alvos preferenciais da mídia, das manchetes e do discurso de ódio internacional. A islamofobia cresceu de tal maneira que eu, depois de décadas estudando imagens, performances e as formas pelas quais os muçulmanos constroem suas próprias representações, precisei me voltar também para os estudos sobre islamofobia. Era necessário compreender não apenas as imagens que as pessoas produziam de si mesmas, mas também aquelas que passaram a ser produzidas contra elas.
Nós, pesquisadores do Islam – e acredito poder falar também a partir da experiência compartilhada com muitos colegas –, sabemos o quanto aquele período foi doloroso para a comunidade islâmica no Brasil. Foi avassalador. Em alguma medida, esse impacto seria depois atenuado pela novela O Clone, que estreou em 1º de outubro de 2001 e colocou em circulação outras imagens e narrativas sobre muçulmanos, árabes e o Islam. Mas não foi suficiente para desfazer uma imagem que foi construída tão violentamente no imaginário das pessoas.
Presenciei, no trabalho de campo, a dor de 2001. Depois, a de 2002, de 2003 e dos anos que se seguiram.
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