O que um dos remédios mais vendidos no mundo faz (e o que não faz) pelo coração
Há décadas, a metformina era um medicamento para diabetes tipo 2 proibido para quem tem insuficiência cardíaca .
Depois, com o passar dos anos e com os estudos de segurança, o comprimido para controle da glicemia carregou fama de remédio “camarada do coração” — ele eventualmente protegeria pacientes com insuficiência cardíaca de complicações graves.
Essa crença, difundida principalmente entre médicos que tratam diabetes e doenças cardiovasculares, acaba de ser atualizada.
Apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Munique, o estudo Met-HeFT — o maior ensaio controlado já conduzido sobre o tema — não encontrou nenhum benefício cardiovascular adicional da metformina em pacientes com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, a forma em que o coração perde parte da capacidade de bombear sangue.
Conduzido em 23 centros médicos da Dinamarca, o estudo acompanhou 940 pacientes com insuficiência cardíaca e diabetes tipo 2, pré-diabetes ou risco aumentado de desenvolver a doença.
Metade recebeu metformina, a outra metade, placebo – a idade média de 70 anos, a maioria homens.
Ao longo de quase quatro anos de acompanhamento, o desfecho principal — morte, piora da insuficiência cardíaca, infarto ou AVC — ocorreu em proporção semelhante nos dois grupos (25,1% com metformina contra 23,4% com placebo), uma diferença sem significado estatístico.
Os desfechos secundários, incluindo mortalidade geral e um marcador de sobrecarga cardíaca (NT-proBNP), seguiram o mesmo padrão: nenhuma vantagem clara para quem tomou o medicamento.
Continua após a publicidade Um segundo trabalho apresentado no mesmo congresso, uma revisão reunindo dados de sete ensaios clínicos com mais de dois mil pacientes — somando os com insuficiência cardíaca aos com doença isquêmica do coração —, chegou à mesma conclusão: não há evidência sólida de que a metformina proteja o coração além do que já se sabia sobre seu papel no controle glicêmico.
Vale uma ressalva dos próprios autores: apenas cerca de 10% dos participantes tinham de fato diabetes tipo 2 diagnosticado, já que muitos pacientes e médicos relutaram em interromper o uso do remédio — critério de entrada no estudo — nos casos em que ele já era usado.
A maioria estava na zona intermediária de pré-diabetes ou resistência à insulina.
Continua após a publicidade O recado prático, porém, é tranquilizador antes de ser desanimador: a metformina não causou nenhum dano aos pacientes com insuficiência cardíaca e continua sendo uma escolha segura e eficaz para tratamento de pessoas com diabetes tipo 2.
Ela continua sendo uma arma no arsenal para controlar a glicose, usualmente combinada com outros medicamentos.
O que muda, porém, é a expectativa.
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