Candidatos ao Senado miram a ‘economia da fé’
Os planos dos candidatos que lideraram as pesquisas para o Senado no País revelam uma tendência microeconômica semelhante: a terceirização de serviços públicos essenciais para entidades privadas denominadas “confessionais” – aquelas de alguma forma ligadas a entes religiosos .
Longe do debate ideológico, as propostas concentram-se no direcionamento estratégico de futuras emendas orçamentárias federais para redes de assistência social geridas por igrejas ou templos.
Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social expõem o tamanho desse mercado: quase 60% dos repasses federais destinados ao acolhimento de dependentes químicos — cerca de R$ 85 milhões anuais —, por exemplo, são canalizados diretamente para comunidades terapêuticas religiosas.
Na prática, essa engenharia transforma o Orçamento da União em um mecanismo de financiamento de instituições religiosas locais.
Como justificativa, candidatos e partidos falam em maior agilidade ao atendimento regional.
Projetos de cunho social precisam ser estimulados, não se discute isso.
Mas há um risco nesse modelo de substituição de projetos sociais técnicos e estruturados por plataformas de caráter, na maioria das vezes, populistas: de sufocamento de estruturas estatais permanentes, como o SUS e a rede pública de ensino, que podem perder espaço na lista de prioridades dos futuros parlamentares.
Ao destinar recursos federais ao terceiro setor “confessional” ou religioso, os candidatos tenderiam a melhorar suas respectivas métricas básicas de eficiência e impacto social em troca de apoio político imediato de lideranças religiosas.
Os Relatórios do Plano Plurianual indicam que o financiamento federal desse modelo específico de movimentação de acolhimento gira entre R$ 177 milhões e R$ 223 milhões por ano, mas sem auditorias rigorosas de resultados.
A baixa transparência no controle dessas entidades privadas abre margem para o uso da fé como modus operandi de favorecimentos eleitorais.
Ao contrário dos órgãos públicos, submetidos a regras de licitação e fiscalizados em tempo real pelo Portal da Tranparência, muitas associações religiosas operam em zonas cinzentas de prestação de contas.
Continua após a publicidade Ao final do ciclo eleitoral, a declaração dessas propostas no Senado Federal poderá aprofundar a dependência de cidadãos vulneráveis em relação a intermediários religiosos para o acesso aos direitos constitucionais básicos.
A economia da fé , financiada pelo Estado e realizada por redes confessionais sem critérios técnicos claros, fragiliza a governança pública e a laicidade das políticas de desenvolvimento.
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