Lulistas e bolsonaristas são menos radicais que o rival supõe, diz pesquisa
Lulistas não são necessariamente inimigos da família, defensores da dependência do Estado ou tolerantes com criminosos. Bolsonaristas não são necessariamente contrários à ascensão dos pobres, à igualdade entre homens e mulheres ou à democracia. Pode parecer óbvio, mas a polarização política transformou o óbvio em notícia.
Pesquisa da More in Common Brasil em parceria com a Ipsos-Ipec mostra que lulistas e bolsonaristas são mais parecidos (e menos radicais) do que os adversários imaginam. Não estamos aqui falando das lideranças políticas, nem das militâncias aguerridas, mas os cidadãos comuns que são simpatizantes de ambos os lados. O problema não é apenas a divergência entre os dois campos, mas o abismo entre o que cada grupo efetivamente pensa e o que o outro acredita que ele pensa.
Esse abismo é chamado de "perception gap", ou descompasso de percepção. Em português claro, significa que transformamos o adversário em uma caricatura, imaginando que ele seja muito mais radical, intolerante e estereotipado do que realmente é. E passamos a combater não pessoas de carne e osso, mas espantalhos construídos por nossa própria bolha.
Em uma escala de zero a 100, os bolsonaristas deram nota média 86 para a afirmação de que é bom que os pobres possam viajar de avião e frequentar lugares antes restritos aos ricos. Os lulistas imaginaram que eles dariam 69.
Quando a frase dizia que homens e mulheres devem receber o mesmo salário pelo mesmo trabalho, a nota média dos bolsonaristas chegou a 94. Os lulistas estimaram que seria 73. Já a afirmação de que nenhum presidente deveria fechar o Congresso e acabar com a democracia recebeu 71 dos bolsonaristas, diante de uma expectativa de 65 dos lulistas.
Ou seja, os bolsonaristas se mostraram mais favoráveis à promoção social dos pobres, à igualdade salarial e à democracia do que seus adversários supunham.
Do outro lado, a caricatura também desmorona. Os lulistas deram nota média ,6 à afirmação de que ser pobre não é desculpa para cometer crimes, enquanto os bolsonaristas imaginaram 67. A frase de que todos deveriam trabalhar para ter renda própria, sem depender do governo, recebeu 84 dos lulistas, ante uma expectativa de 65 dos bolsonaristas.
E a maior concordância apareceu justamente em um tema que a direita costuma tratar como propriedade particular: "a família é a base de tudo" recebeu nota média 95 entre os lulistas. Os bolsonaristas esperavam 72 deles.
"O principal resultado da pesquisa é que cada grupo estigmatiza o adversário, errando em torno de 20 pontos numa escala de 0 a 100 o quanto o adversário concorda com as afirmações", afirmou ao UOL Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common e professor de Política Pública na Universidade de São Paulo.
"O mais surpreendente, porém, não é a estimativa exagerada, mas o número absoluto. Em todos os seis estereótipos que a gente mediu o grau de concordância é enorme, ou seja, os adversários definitivamente não são o estereótipo.
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