Perseguição à família durante a ditadura militar levou Henrique a “radicalizar”
Engenheiro mecânico, economista e professor aposentado, Henrique Neder tinha 11 anos quando o golpe de 1964 atingiu sua família, em Campo Grande.
Filho do empresário Renê Neder e sobrinho de Alberto e Humberto, ele assistiu à prisão do pai e acompanhou, ainda criança, os efeitos da perseguição sobre os três irmãos.
Décadas depois, ao falar sobre aquele período, resumiu a marca deixada pela repressão na família com uma imagem forte: “Eu sentia como criança e adolescente, essa atmosfera de exclusão.
Foi um impacto muito grande na vida da família”, disse, em entrevista ao Campo Grande News , com a sensação de que o período de trevas o acompanhou pela vida.
“Acho que eu tenho um problema a ser resolvido com o meu passado.” Segundo Henrique, os pais e os tios pertenciam a uma família de posição social em Campo Grande, mas passaram a conviver com a exclusão e o estigma de serem identificados com a esquerda em um estrato de cultura política conservadora.
Ele lembra do ambiente de suspeita e das pessoas que, segundo sua memória, “dedavam” umas às outras.
Entre elas, cita o médico Cláudio Fragelli, irmão do ex-governador e ex-senador José Fragelli e principal dirigente da Ademat (Associação Democrática Matogrossense), entidade de viés paramilitar que atuava como braço político-empresarial da ditadura.
Também recorda a humilhação pública de Alberto, médico respeitado, levado algemado em um jipe pelas ruas de Campo Grande.
“Foi uma tentativa de humilhá-lo publicamente”, afirmou.
Dos três irmãos perseguidos, Alberto era o mais convicto e instruído na política.
Henrique lembra que o tio era visitado em Campo Grande por intelectuais de esquerda também de outros países, especialmente da França.
Um de seus filhos, o médico Carlos Alberto Pletz Neder, não por acaso, foi secretário de Saúde da ex-prefeita Luiza Erundina, na capital paulista, ajudou a construir o SUS (Sistema Único de Saúde) e foi eleito três vezes seguidas deputado estadual em São Paulo, assumindo duas vezes como primeiro suplente e a última diretamente como titular.
Um dos fundadores do PT, faleceu em 2021, aos 67 anos, por complicações da Covid-19.
A perseguição, na lembrança de Henrique, não ficou restrita aos homens presos.
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