Mulheres, indígenas e venezuelanos são atraídos para garimpo com promessa de riqueza fácil
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Um garimpeiro ofereceu um refrigerante a Diana (nome fictício). Ela aceitou. Minutos depois, ele exigiu sexo em troca. Diante da recusa, insistiu. Ela só escapou porque outro homem interveio e mandou que fosse deixada em paz.
O episódio ocorreu em 2017, poucos dias depois de Diana chegar a um garimpo em Roraima em busca de melhores condições de vida. Só mais tarde descobriu que havia sido vítima do que os garimpeiros chamam de "rodar o peão".
A expressão é usada para descrever mulheres que aceitam um presente ou favor e, depois, recusam uma investida ou se relacionam com outro homem.
Segundo Diana, a situação frequentemente termina em violência. Ela afirma ter presenciado mais de dez assassinatos de mulheres por esse motivo em diferentes garimpos pelos quais já passou em cinco anos.
"Os homens não aceitam um 'não'. Acham que toda mulher que está ali, sem um companheiro, foi para vender o corpo", diz. Ela e outras pessoas entrevistadas pela Folha pediram para não ter seus nomes verdadeiros divulgados por temerem represálias.
Diana diz que se casou no ano seguinte para conseguir evitar o assédio. Também passou a usar roupas largas. O medo, porém, nunca desapareceu.
O relato de Diana está longe de ser exceção. Mulheres, indígenas, migrantes e até adolescentes são encontrados em garimpos ilegais, inseridos em uma engrenagem marcada por doenças, exploração sexual, endividamento, violência e pela presença crescente do crime organizado .
A antropóloga Dalila Dantas Simões afirma que o garimpo é marcado por relações de poder desiguais e que mulheres, principalmente as solteiras, estão mais expostas a assédio, violência e coerção.
Como tem mostrado a série A Nova Rota do Ouro, o garimpo ilegal se expandiu durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Em 2020, os novos alertas identificados por monitoramento de satélite de garimpo somaram 5.473 hectares. No ano seguinte, a área saltou para 23.967 hectares.
Série de reportagens mostra o cenário do garimpo ilegal no Brasil, a infiltração do crime organizado no setor, os desvios do metal para o exterior e as vítimas exploradas na mineração clandestina
Desde 2023, a gestão Lula (PT) intensificou as operações de combate à atividade em determinadas regiões, como na Terra Indígena Yanomami. Mais de 9.000 operações no território e em seu entorno contribuíram para uma redução de 99% nas áreas de garimpo ilegal.
Naquele ano, os novos alertas somaram 14.115 hectares, uma queda de 41,11% em relação a 2022, ano com maior número de novos alertas do governo Bolsonaro. Os dados, no entanto, indicam que o garimpo também mudou de rota, avançando sobre áreas com menor presença da fiscalização.
Larissa (nome fictício) trabalhou como cozinheira em garimpos na Venezuela, Guiana, Colômbia e Brasil . Atuou tanto nas pistas, centros de apoio logístico que recebem suprimentos por avião, quanto nas máquinas, onde o ouro é extraído em condições muito mais precárias.
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