ONU pode ser reformada? Jornalistas reagem aos principais discursos e debatem crise do multilateralismo
O começo da Assembleia Geral das Nações Unidas, que acontece até a próxima segunda-feira (28) em Nova York (EUA), ficou marcado pelos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de seu principal antagonista no cenário político internacional atual, o presidente Donald Trump.
Nas falas, os dois chefes de Estado não se referiram um ao outro textualmente, mas trataram de temas, no cenário atual, sensíveis às nações e às relações exteriores entre ambas. Lula falou em defesa da democracia, soberania e busca pela paz. Trump reforçou o discurso violento de guerra e defendeu a atuação das big techs e a operação da inteligência artificial sem qualquer regulamentação sob o pretexto de liberdade.
A ONU, embora tenha perdido importância no que diz respeito a um organismo em que decisões políticas estratégicas são tomadas, ainda é um espaço que consegue reunir o maior número de nações dos mais diversos espectros ideológicos.
Em seu discurso, Lula criticou o processo de esvaziamento da ONU e falou em reforma do organismo internacional, especificamente sugerindo a ampliação do Conselho de Segurança, hoje restrito a 15 países que têm poder de veto. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em seu discurso, seguiu o mesmo entendimento do presidente brasileiro, chegando a definir a instituição como “ultrapassada” nos moldes atuais.
Em participação no podcast O Estrangeiro , os jornalistas do Brasil de Fato Lucas Estanislau, Monyse Ravena e André Lucena ponderam que, na realidade, é preciso pensar que o modelo de organização das nações que ensejou o surgimento da ONU talvez esteja se esgotando. Para Lucena, há um processo de deslocamento de centro de poder.
“Existe um movimento de fundo muito escancarado através do Trump, mas que não é de agora, de que aquele multilateralismo pós-Segunda Guerra, que depois teve seu grande capítulo com a queda da União Soviética, já não exprime mais as relações de força que levaram à construção dessa ONU tal qual conhecemos. Algo muito parecido e com um contexto muito diferente se passou com a Liga das Nações e quando fizeram o Congresso de Viena lá no começo do século 19. Não é a instituição em si; ela não existe por si, ela existe por exprimir uma correlação de forças que talvez já não exista mais. E, não por acaso, esse certo esvaziamento da ONU passa pelo crescimento e fortalecimento de instituições que estão ali na Ásia”, disse o jornalista.
Ele avaliou que os discursos de Lula e Trump apresentam “duas visões de mundo antagônicas” e que o presidente brasileiro fez “um contraponto antecipado ao que o Trump poderia falar”, como se fosse um debate, só que sem direito à réplica. “O governo tentou arranjar todos os pontos possíveis.
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