Liderados por Trump, 14 países da região se comprometem a combater facções e cartéis; documento cita PCC e CV
Trump intensifica retórica sobre América Latina na ONU, com possível repercussão nas eleições brasileiras
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas para reforçar o posicionamento de seu governo sobre os países da América Latina, demonstrando uma prioridade renovada sobre a região em um momento politicamente sensível para o Brasil. Embora o país não tenha sido mencionado de forma explícita, especialistas e diplomatas brasileiros enxergam na fala do mandatário norte-americano uma mensagem indireta ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, a poucos meses de uma eleição presidencial considerada fundamental para o futuro político da região.
Washington vê o Brasil sob a administração Lula como uma nação que não se alinha aos interesses prioritários do governo Trump. De acordo com assessores do presidente brasileiro, os norte-americanos nutririam preferência por uma mudança de comando no país, idealmente por meio de uma vitória de Flávio Bolsonaro, senador pelo Partido Liberal e pré-candidato à Presidência.
Força militar como ferramenta de influência regional
Em sua apresentação à ONU, Trump ressaltou as operações militares que seu governo realizou na Venezuela, particularmente a captura do ex-presidente Nicolás Maduro ocorrida em janeiro do presente ano. Ao abordar esse tema, o presidente transmitiu uma mensagem clara aos governos latino-americanos sobre os limites que Washington estabelece para sua influência na região.
A retórica empregada por Trump associou diretamente a ação militar contra a Venezuela a uma demonstração da disposição dos Estados Unidos em empregar seu poder militar para garantir seus interesses hemisféricos. Segundo a avaliação de especialistas ouvidos em caráter reservado, essa postura não deixou espaço para dúvidas sobre a disposição de Washington de tomar medidas mais robustas caso considerasse necessário proteger o que classifica como seus interesses vitais.
Carol Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, avalia que mesmo sem fazer referências explícitas ao Brasil, o foco renovado de Trump sobre a América Latina coloca o país numa posição de destaque nas preocupações do governo norte-americano. A especialista sugere que esse padrão de comunicação política poderá ser mobilizado durante a reta final da campanha eleitoral brasileira.
Combate ao crime organizado como ferramenta política
Uma dimensão importante do discurso de Trump foi a ênfase dada ao combate contra organizações criminosas latino-americanas. O presidente norte-americano anunciou a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, citando nominalmente os cartéis de droga do México e o Tren de Arágua, grupo criminal baseado na Venezuela.
Esse processo de classificação iniciou ainda durante 2025, logo no começo do segundo mandato de Trump. No entanto, uma ação específica ganhou relevância particular no contexto político brasileiro: em maio do presente ano, o governo Trump estendeu essa classificação de terrorismo para duas das principais organizações criminosas que atuam no Brasil, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
A decisão norte-americana contradizia a posição adotada pelo governo Lula, que não havia buscado tal classificação. Simultaneamente, a medida atendia a um pedido explícito de Flávio Bolsonaro, senador que busca a presidência e que vinha pressionando pela designação dessas organizações como terroristas.
Contexto: as dinâmicas geopolíticas em transformação
Para compreender plenamente a importância dessa ação diplomática, é essencial entender o pano de fundo geopolítico. A América Latina sempre ocupou posição central na política externa dos Estados Unidos, desde razões estratégicas até econômicas. Historicamente, Washington procurou garantir que os governos na região adotassem posturas alinhadas aos seus interesses.
O conceito de "Hemisfério Ocidental" que Trump invocou em seu discurso remonta à Doutrina Monroe do século 19, embora tenha sido ressignificado ao longo das décadas. Os Estados Unidos mantêm uma visão de que a região constitui uma zona de interesse estratégico onde seu poder de influência deve prevalecer.
O crime organizado e o tráfico de drogas tornaram-se, nas últimas décadas, instrumentos políticos importantes nas relações entre Washington e países latino-americanos. A classificação de organizações como terroristas não é meramente uma questão de segurança, mas também carrega implicações diplomáticas significativas. Quando um governo classifica uma organização assim, está sinalizando uma postura específica sobre como lidar com aquele problema.
No caso brasileiro, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho são facções que disputam controle sobre o tráfico de drogas, especialmente a cocaína, cujo destino principal é o mercado norte-americano. Esses grupos também possuem envolvimento em outras atividades criminosas, desde roubo de carga até lavagem de dinheiro.
A posição do governo Lula sobre essas organizações refletia um enfoque centrado no sistema penitenciário e no combate ao crime sem necessariamente recorrer a classificações que remetem a legislação de segurança nacional. O governo Trump, por sua vez, optou por uma abordagem que enfatiza a militarização da resposta e a integração com protocolos internacionais de combate ao terrorismo.
A leitura brasileira dos movimentos norte-americanos
Diplomatas brasileiros, falando sob anonimato, interpretam o discurso de Trump na ONU como um recado indireto ao Brasil. Essa leitura baseia-se na continuidade observada entre o discurso geral sobre a América Latina e as ações específicas contra organizações criminosas brasileiras tomadas meses antes.
De acordo com a avaliação desses diplomatas e de Carol Pedroso, Trump teria reforçado a mensagem de que seu governo mantém disposição para intervir na região, seja através de ação militar direta ou de medidas político-diplomáticas, a fim de assegurar influência e impedir que governos não-alinhados ganhem espaço de manobra.
A professora da Unifesp vai além e sugere que essa confluência de fatores, embora não tenha mencionado o Brasil nominalmente, acaba por colocar o país no centro de uma disputa geopolítica que provavelmente será explorada durante a campanha eleitoral brasileira. Segundo ela, a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações narcoterroristas representa uma forma indireta de o governo norte-americano reforçar uma agenda que favorece candidatos mais alinhados com sua política.
A minimização oficial
Um assessor do presidente Lula procurou mitigar a importância dos comentários de Trump sobre a América Latina, argumentando que o presidente norte-americano simplesmente reiterated retórica que já havia empregado anteriormente. Segundo esse auxiliar, ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil, as menções à região não constituiriam mensagens diretas ao Brasil, mas apenas repetições de posicionamentos já conhecidos dentro do chamado Escudo das Américas, uma iniciativa que busca coordenar segurança na região.
Essa diferença de interpretação entre diplomatas e especialistas, de um lado, e o governo Lula, do outro, reflete uma divergência sobre como ler as intenções por trás dos pronunciamentos do governo Trump. Enquanto alguns veem sinais cifrados de uma pressão velada, o governo brasileiro prefere interpretar as falas como de caráter genérico.
O que acompanhar
Os desdobramentos dessa questão podem tomar várias direções nos próximos meses. A utilização da classificação de organizações criminosas como ferramentas políticas durante uma campanha presidencial seria um precedente significativo, dependendo de como o tema será incorporado pelos candidatos. A dinâmica entre os EUA e o governo Lula também tenderá a se intensificar conforme a eleição se aproximar, particularmente se houver novas ações norte-americanas que possam ser interpretadas como sinais de apoio ou rejeição a candidatos específicos. Além disso, será importante observar como a diplomacia brasileira responde a futuras iniciativas do governo Trump e se outras nações latino-americanas adotarão posições semelhantes à do Brasil ou se se alinharão à abordagem norte-americana de classificação de criminosos.
Principais pontos:
• Trump utilizou seu discurso na ONU para reforçar o foco do governo norte-americano sobre a América Latina em um momento crítico para a política brasileira, com possível impacto eleitoral.
• A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações narcoterroristas pelo governo Trump em maio representa uma ação indireta que favoreceria candidatos mais alinhados com Washington, segundo especialistas.
• Diplomatas e professores de Relações Internacionais interpretam o discurso como um recado cifrado ao Brasil sobre a disposição dos EUA em intervir para manter sua influência regional.
• O governo Lula minimiza a importância das menções de Trump, interpretando-as como simples repetição de retórica já conhecida sobre a estratégia de segurança hemisférica.
Resumo reescrito automaticamente pelo 5News a partir da matéria original. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.bbc.com — o conteúdo pertence a BBC News Brasil.