O que a ‘maior e mais antiga democracia do mundo’ representa para o povo haitiano
Já tratei, em outras colunas aqui no Opera Mundi, do Haiti, a primeira república negra livre das Américas, que até hoje paga o preço pela própria liberdade. Ao que me parece, o fato dos haitianos terem degolado os colonizadores franceses jamais será esquecido pelo Norte global e, correndo o risco de parecer repetitivo, volto a fazer uma crítica aos EUA e à administração Trump, em especial no que diz respeito às suas políticas migratórias.
Os imigrantes haitianos perderam o benefício do chamado Temporary Protected Status, um programa que permitia que pessoas de países atingidos por situações extremas vivessem e trabalhassem legalmente nos EUA. Cidadãos haitianos foram beneficiados pelo programa pelo menos desde o grande terremoto de 2010 e nos EUA já formam uma população de cerca de 300 mil, muitos deles em cidades como Ohio, no Centro Oeste.
Os EUA vivem uma crise migratória sem precedentes, com Donald Trump usando do ICE, a Imigração e Alfândega do país, como uma polícia política de caça a qualquer imigrante ilegal. Agora, a administração Trump adota uma política cada vez mais dura, colocando fiscalização e detenção no centro da estratégia. O ICE tem convocado os imigrantes haitianos para verificações presenciais; eles são detidos durante o procedimento e só são liberados caso aceitem sair com tornozeleiras eletrônicas.
Imagine passar mais de uma década construindo sua vida em um país, trabalhando, criando raízes, fazendo planos e, de repente, se ver sendo tratado como um criminoso.
O programa de campanha de Trump tem sido posto em prática usando o povo haitiano como bodes-expiatórios. A estratégia é semelhante à utilizada com qualquer outra minoria étnica que imigrou: entre as principais justificativas estão a associação criminosa, mas me lembro bem de já ter visto Trump em pelo menos uma declaração oficial usando palavras muito menos convencionais para se referir ao Haiti e alguns países africanos como a Etiópia: ele os chamou de países de merda em 2018.
O ódio é supremacista, não há dúvidas quanto a isso. Estamos falando de pessoas que receberam proteção, trabalharam, criaram raízes e construíram uma vida sob essa proteção.
Agora, essa vida está sendo colocada novamente em estado de incerteza, porque quando uma política migratória muda, ela não muda apenas um documento, ela muda a rotina, a família, o trabalho e o futuro de pessoas reais. Em especial no caso do Haiti, um país que tem sua economia movimentada pelo dinheiro enviado de imigrantes como aqueles impactados por essas políticas. Essa mudança, apesar de se dar em território norte-americano, ameaça a sobrevivência do país caribenho.
E, nesse caso, infelizmente, essa mudança na política migratória chegou até o tornozelo dos haitianos que escolheram o país da maior e mais antiga democracia do mundo para morar.
(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em operamundi.uol.com.br — o conteúdo pertence a Opera Mundi.