Poema épico de Camões, efeito Vorcaro e uma República em frangalhos que não se enxerga
Camões não escreveu sobre o Brasil, “recém-descoberto”, mas retratou o que viria a ocorrer 500 anos depois No mesmo momento em que o território que hoje chamamos de Brasil estava sendo ocupado pelos portugueses com sua sanha colonizadora de pegar e levar toda riqueza possível, o escritor português Luís Vaz de Camões estava escrevendo “Os Lusíadas”, uma obra de poesia épica, a primeira epopeia portuguesa publicada em versão impressa.
Provavelmente iniciada em 1556 e concluída em 1571, foi publicada em Lisboa em 12 de março de 1572.
Nessa obra clássica, Camões tratou sobre poder, corrupção e dinheiro que provocam efeitos que estamos assistindo no Brasil, nesse exato momento: o dinheiro leva a assassinatos; conduz à traição; conduz à traição e à falsidade entre os amigos; transforma o mais nobre em vilão: a ambição material pode levar nobres, capitães ou virgens a renderem-se ao seu poder, mesmo tendo consciência de que a sua honra ficará manchada.
Também assinala que o dinheiro corrompe as ciências, os juízes e as consciências, levando-as a agir contra os seus princípios morais e culturais.
Mesmo que não houvesse a imprensa da forma que conhecemos hoje, a poesia já afirmava que o dinheiro distorce/perverte a interpretação dos textos, além de manipular as leis e a justiça, que se aplicam arbitrariamente; fomenta o perjúrio; fomenta a tirania nos reis; corrompe os membros do clero (religiosos), ainda que sob uma capa de virtude.
Quinhentos anos depois, eis que surge um banqueiro mal-intencionado e corrupto que conseguiu encher os bolsos do vil metal arrancado de forma desonesta de fundos públicos de aposentados e de outras instituições bancárias privadas, além de depósitos feitos por ricos e pobres.
Para se blindar, começou a corromper políticos, ministros da mais alta Corte (STF), empresários, jornalistas, apresentadores de programa de TV, atrizes e outros personagens com influência na sociedade, inclusive bancando festas e orgias com garotas sendo transformadas em escravas sexuais brancas.
Dessa vez, não se trata de uma epopeia portuguesa.
É a vida real do caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, que abalou a estrutura da República, mas não envergonhou os eleitores, que elegeram todos os políticos envolvidos nessa trama sórdida movida por ambição, poder e luxúria.
Até empresário de alta reputação, chefe de alta patente do jornalismo e presidenciável foram flagrados em áudios e prints rastejando e implorando por grana.
Rolavam milhões em farras, voos de jatinho, jantares, congressos jurídicos e econômicos, bacanais e canapés.
Não se trata mais de uma trama de Camões.
Mas é uma síntese do que o autor português apontou no épico poema que narra os vícios provocados pela ambição: a traição, a corrupção, a arbitrariedade, a mentira/o perjúrio e a tirania.
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