Vencedor em Cannes, ‘Fjord’ humaniza família de extrema-direita com elipses
Em uma remota vila no oeste da Noruega, avalanches desmoronam do topo dos picos rotineiramente, furiosos e indomáveis, mas, para evitá-los, basta buscar abrigo seguro e esperar algumas horas.
Quanto a outras variáveis, proteger o próprio conforto não é tão fácil — como descobrem os habitantes locais com a chegada da família Gheorgiu , imigrantes que trazem consigo costumes da Romênia e uma fervorosa fé cristã deslocada dos valores categoricamente progressistas da nação escandinava.
Certo dia, a situação passa do mero estranhamento, e a mais velha dos cinco filhos, Elia (Vanessa Ceban), aparece na escola com hematomas nas costas e no rosto.
Para as professoras, é óbvio: ela apanhou dos pais fundamentalistas após contrariar algum dogma.
O Serviço de Proteção da Criança é acionado e, na mesma semana, os cinco menores de idade já estão sob custódia do Estado — incluindo um bebê —, enquanto os pais são sujeitos à avaliação psicológica e ao treinamento de controle de raiva, mesmo que nenhuma perícia tenha comprovado a conduta.
Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , o filme Fjord , vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2026, é livremente inspirado no que realmente aconteceu com Ruth e Marius Bodnariu em 2015, que apenas retomaram a guarda das crianças no ano seguinte, quando prontamente voltaram à Romênia.
À época, o caso teve grande repercussão na mídia internacional e pôs em cheque argumentos sobre o intervencionismo estatal, a liberdade religiosa e o senso moderno de moralidade.
O olhar do cineasta romeno Cristian Mungiu, porém, evita tomar qualquer conclusão sobre termos guarda-chuva.
Pelo contrário, prefere sugerir a macro escala dos eventos em elipses, assim como oculta múltiplos acontecimentos chave da trama, sem jamais delimitar mocinhos e algozes.
Seu roteiro tampouco dá voz forte às crianças em jogo, meros peões à mercê dos adultos.
Dessa forma, é tudo muito mais incerto, cativante e dinâmico, assim como muito mais humano.
Crentes de que os mansos herdarão a Terra, os Gheorgiu primeiro reagem ao ocorrido com passividade, permitindo que os protagonistas Sebastian Stan e especialmente Renate Reinsve aproveitem ao máximo um registro contido.
A situação muda, porém, quando o patriarca Mihai (Stan) decide tomar as rédeas e ir a público, buscando auxílio da embaixada da Romênia — onde mais de 70% do povo responde à Igreja Ortodoxa —, de veículos jornalísticos cristãos e de figuras da extrema-direita internacional.
Com o circo armado, fica claro que o amor do pai pode sim ser mais condicional — e mais duro — do que ele defende, mas também que a Noruega está longe de ser um oásis civilizatório, marcada pela xenofobia e por uma frieza protocolar de arrancar os cabelos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em veja.abril.com.br — o conteúdo pertence a Veja.