Olho no Japão – O carry de centenas de bilhões que ninguém consegue rastrear até o Brasil
Esta é a segunda de uma série de cinco reportagens que o Radar Econômico publica sobre a mudança do regime de juros no Japão, o yen carry trade e os efeitos dessa transformação sobre os mercados globais e os ativos brasileiros.
Uma das maiores operações especulativas do mercado financeiro mundial tem uma característica desconfortável: ninguém sabe exatamente quanto dinheiro existe nela — nem para onde ele foi.
Na véspera da turbulência que sacudiu os mercados em agosto de 2024, o Banco de Compensações Internacionais, o BIS, estimou que diferentes indicadores apontavam para algo próximo de 40 trilhões de ienes, ou cerca de 250 bilhões de dólares à época, em operações relacionadas ao chamado *yen carry trade*.
O próprio banco advertiu que o número poderia estar subestimado por causa das enormes lacunas existentes nos dados.
O problema fica ainda maior quando se tenta responder à pergunta que interessa ao Brasil: quanto desse dinheiro está apostado no real, nos juros brasileiros ou em outros ativos do país? Não há uma resposta confiável.
Continua após a publicidade E a razão está na forma como essas operações são montadas.
Na versão mais simples do *carry trade*, um investidor toma dinheiro emprestado em uma moeda de juros baixos, vende essa moeda e aplica os recursos onde os juros são maiores.
Durante décadas, o iene foi praticamente feito sob medida para desempenhar o primeiro papel.
O Japão manteve taxas próximas de zero enquanto países como Brasil e México ofereciam remunerações muito superiores.
Se todas as operações fossem feitas dessa maneira, seria relativamente fácil acompanhá-las.
Bastaria procurar empréstimos em iene e seguir o dinheiro até o ativo comprado.
Continua após a publicidade Mas o mercado real funciona de outra maneira.
Fundos e investidores alavancados podem construir o mesmo risco usando forwards, swaps cambiais, futuros e opções, sem necessariamente tomar um empréstimo convencional em ienes.
O BIS observa que esse é um dos motivos pelos quais estatísticas bancárias tradicionais conseguem capturar apenas uma parte do fenômeno.
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