Vinte por cento de fetiche: o que a taxa das blusinhas esconde
O Congresso vota nesta semana, sob pressão do relógio, o prazo se esgota em 8 de setembro, o fim dos 20% cobrados sobre compras internacionais de até US$ 50.
É a chamada “taxa das blusinhas”, instituída em 2024 e que agora o próprio governo corre para revogar, transformando a extinção em bandeira de campanha para outubro.
O debate público se organiza, quase sem exceção, em dois campos apenas.
De um lado, o Planalto promete alívio ao bolso do consumidor, com a possibilidade de comprar mais barato numa economia ainda pressionada pela inflação de itens básicos.
De outro, a indústria nacional, pela voz da CNI, alerta para R$ 21,8 bilhões em produção doméstica e mais de cem mil empregos em risco e pressiona por um mecanismo de monitoramento.
É uma disputa legítima, com números concretos e efeitos reais sobre emprego e renda.
Mas há uma pergunta que nenhum dos dois lados formula, porque nenhum dos dois tem interesse em formulá-la: por que uma peça de roupa que atravessa meio mundo (fábrica, armazém, porão de avião, van, aplicativo de entrega) pode custar menos que o feijão do almoço? A resposta não está na planilha tributária.
Está no que toda mercadoria, por definição, se recusa a mostrar.
Marx chamou isso de fetichismo da mercadoria, não como acusação moral contra o consumidor (a acusação fácil, a que sobra sempre para quem tem menos escolha), mas como descrição precisa de um mecanismo: a mercadoria aparece no mercado já destacada das relações sociais que a produziram, como se seu preço fosse propriedade natural sua, e não cristalização de trabalho humano concreto, executado por corpos concretos, em condições concretas.
A blusinha de R$ 25 que chega em três dias não é mágica logística, é a ponta visível de uma cadeia que começa em fábricas chinesas onde, por exemplo, segundo investigações já documentadas contra fornecedores da Shein, a prática de jornadas de trabalho extenuantes não é exceção, mas método de precificação.
E termina, no Brasil, no motoboy ou entregador de aplicativo que sustenta, pedalando ou pilotando sob risco próprio, sem vínculo empregatício e sem cobertura, a “última milha” que faz a promessa de entrega em três dias parecer natural, quase gratuita.
Entre a fábrica em Guangdong e a porta do apartamento em Porto Alegre, há uma cadeia inteira de trabalho precarizado que o preço final sistematicamente invisibiliza; e é essa invisibilização, não a alíquota de importação, o verdadeiro objeto que mereceria debate público.
É por isso que a dicotomia “consumidor vs. indústria”, tal como estruturada no debate atual, é uma falsa dicotomia ou, mais precisamente, uma dicotomia verdadeira colocada sobre um terreno errado.
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