Se o seu candidato só fala em matar e punir, então já falhou em cuidar de crianças e adolescentes
Por Paulo Batistella, da Ponte Jornalismo * Rute Fiúza diz que costuma fazer uma mesma pergunta quando participa de rodas de conversa com adolescentes, uma parte de sua rotina como ativista de direitos humanos e integrante do Movimento Independente Mães de Maio nos últimos 12 anos: já se inscreveu no Enem? Em um dos mais recentes desses encontros, em um quilombo em Lauro Freitas (BA), na região metropolitana de Salvador, se entristeceu, no entanto, com a resposta.
“Todas elas eram meninas de 17 e 18 anos que acabaram agora o ensino médio.
E elas me disseram: ‘Para quê? Tem um monte de gente aqui no quilombo com faculdade e desempregada'”, conta.
Assim como a pergunta, tem sido comum, segundo Rute, perceber os mais jovens desanimados, principalmente nas periferias e em comunidades tradicionais.
“Tem a música que fala que os sonhos não envelhecem, mas tenho a sensação de que a juventude não tem mais sonhos.” Ela atribui o desânimo, contudo, não a eles próprios, mas à falta de amparo do Estado e de boas influências.
“Acho que faltam políticas públicas para essa juventude”, diz Rute.
A falta de atenção com crianças e adolescentes também parece evidente, segundo ela, nas eleições gerais de 2026, em que a segurança pública é colocada como prioridade em pesquisas de opinião.
Quando os mais jovens são lembrados nesse debate, invariavelmente é para sustentar propostas que punem, como a de redução da maioridade penal, em vez das que protegem e promovem direitos.
Mas como falar de segurança sem dar absoluta prioridade para crianças e adolescentes, como determina a Constituição Federal? Quais políticas deveriam estar na agenda eleitoral para tornar segura e plena de direitos a vida de quem vai às urnas pela primeira vez ou ainda sequer tem direito ao voto? É o que a Ponte discute nesta reportagem, a sexta e última da série especial Ponte nas Eleições , que debate a segurança pública como a pauta central da disputa eleitoral deste ano.
Brasil tem piora de diferentes violências contra crianças e adolescentes Nos últimos anos, o Brasil tem tido aumentos expressivos de diferentes formas de violência contra crianças e adolescentes.
Em 2025, foram mais de 60 mil casos de maus-tratos e de lesão corporal em contexto de violência doméstica contra os mais jovens, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) .
Em relação a 2021, o número de casos de lesão corporal contra pessoas de até 17 anos subiu 15%.
Já os episódios de maus-tratos contra esse grupo mais do que dobraram (+106,1%), conforme consta na edição mais recente do Anuário Brasileiro da Segurança Pública , consolidado pelo FBSP.
Os mais jovens são ainda os alvos mais frequentes de violência sexual no país.
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