Se o osso peniano em certos animais ainda é uma novidade para muitos, o osso clitoriano é ainda mais surpreendente
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Professora da pós-graduação em Estudos Ambientais Aplicados à Fauna, PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)
Quando pensamos em ossos, principalmente no que se refere aos mamíferos , certamente fazemos associação com o crânio, fêmur e vértebras, ou seja, conhecemos quais são os ossos que compõem nosso esqueleto e sabemos a sua função —sustentação, equilíbrio, mobilidade e proteção.
No entanto, ao nos referirmos à existência de um osso no pênis , a maior parte das pessoas se surpreende. Contudo, é ainda mais surpreendente quando mencionamos a existência de um osso no clitóris das fêmeas.
Sim, alguns grupos de mamíferos —como roedores , morcegos e primatas— possuem estruturas ósseas associadas à genitália . O báculo é o osso que ocorre no pênis, enquanto o baubelo é o osso presente no clitóris das fêmeas. Essas estruturas têm seus nomes com origem no latim: Baculum (em português, bastão ou cajado) e Baubellum (em português, joia).
Diferente do que acontece com os machos, para os quais existem diversas publicações científicas que apresentam a morfologia da genitália, descrevem o báculo e suas funções, o estudo da genitália feminina e a estrutura presente nas fêmeas é negligenciado .
O clitóris é amplamente reconhecido como o principal ponto do prazer sexual feminino . Apesar de seu papel central, historicamente o órgão recebeu descrições imprecisas, sendo frequentemente tratado de forma simplificada como uma versão miniaturizada do pênis. Chegou a ser omitido em manuais médicos entre as décadas de 1950 e 1970.
Mas a identificação do órgão remonta à Antiguidade clássica. Autores como Rufo de Éfeso —responsável por introduzir o termo kleitoris— e Sorano de Éfeso já documentavam a anatomia feminina por volta do século 2 depois de Cristo. Em contrapartida, figuras de grande influência como Galeno, o mais famoso médico da Antiguidade depois de Hipócrates , negligenciaram o tema. E o próprio pai da Medicina interpretou o clitóris, erroneamente, como um mecanismo de proteção.
Na Idade Média , a estrutura anatômica sofreu forte repressão moral e religiosa, recebendo denominações pejorativas no manual inquisitorial, como o "mamilo do diabo" Malleus Maleficarum.
No século 16, o anatomista Matteo Realdo Colombo divulgou em sua publicação De re anatomica a definição do clitóris como o foco central do prazer feminino. Mas foi apenas entre os séculos 17 e 19 que o rigor científico em torno do órgão ganhou força.
Regnier De Graaf desempenhou um papel central ao detalhar o clitóris, surpreso por nenhum anatomista tê-lo descrito até o momento, pois "se trata de uma estrutura perceptível a visão e ao tato".
George Ludwig Kobelt realizou o mapeamento detalhado da rede nervosa, vascular e interna. Mas esse período foi marcado também por práticas médicas retrógradas, como a realização de clitoridectomias (remoção cirúrgica do clitóris) para conter supostos transtornos mentais e neurológicos.
No século 20, o assunto retornou aos debates médicos por intermédio das teorias de Sigmund Freud sobre o desenvolvimento psicossexual.
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