A libertação de Paris e o apagamento dos soldados negros
Há 82 anos, em 25 de agosto de 1944, Paris era libertada do domínio nazista após quatro anos de ocupação. A vitória foi celebrada como um grande triunfo nacional, simbolizado pela marcha do general Charles de Gaulle pela Avenida Champs-Élysées.
Com a França sob ocupação nazista, de Gaulle precisou recrutar combatentes junto às colônias francesas na África. Mais de 65% dos soldados das Forças Francesas Livres (FFL) eram oriundos do continente africano. Os soldados que expulsaram os nazistas da França nasceram em países como Gabão, Chade, República do Congo, Argélia e Tunísia.
As imagens do desfile de libertação, no entanto, mostram apenas soldados brancos marchando por Paris. Incomodados com a presença de combatentes negros entre as tropas libertadoras, oficiais dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França determinaram o “branqueamento” das FFL, expulsando os combatentes negros e os substituindo por europeus e magrebinos de pele clara.
Paris capitulou diante das tropas de Adolf Hitler em 14 de junho de 1940, após ser abandonada por grande parte de sua população e declarada “Cidade Aberta”. Subordinada à ocupação militar alemã, a capital francesa permaneceu por quatro anos sob o jugo nazista. A população judia da cidade teve seus direitos limitados, seus bens pessoais confiscados e foi em grande parte exterminada nos campos erguidos pelos nazistas no Leste Europeu. Membros da Resistência Francesa, agremiações antifascistas e comunistas também foram brutalmente reprimidos.
Ainda em junho de 1940, o general Charles de Gaulle, líder do governo francês exilado em Londres, instituiu as Forças Francesas Livres (FFL), a unidade militar regular que conduziria a luta contra a invasão nazista. Com a França ocupada pelas tropas alemãs, de Gaulle precisou recorrer ao recrutamento de soldados oriundos das colônias francesas na África — os chamados “Tirailleurs Sénégalais” (“Fuzileiros Senegaleses”).
Estima-se que dois terços dos efetivos totais das FFL eram compostos por combatentes vindos de Senegal, Guiné, Mali, Mauritânia, Costa do Marfim, Níger, Burquina Fasso e Benim. A despeito de sua importância para a máquina militar francesa, os soldados africanos sofriam enorme discriminação. Recebiam soldos inferiores aos dos combatentes brancos, eram submetidos a tratamentos severos e raramente ascendiam à condição de oficiais.
As tropas coloniais participaram de campanhas decisivas ao longo da Segunda Guerra Mundial. Os soldados africanos foram responsáveis por conduzir as FFL à sua primeira vitória militar, viabilizando a tomada de Koufra em 1941. Engajaram-se igualmente na heroica defesa de Bir Hakeim em 1942. Lutaram na Campanha da Tunísia e auxiliaram os Aliados nos combates na Itália.
Os soldados africanos também tiveram papel fundamental no apoio aos Aliados durante a Batalha da Normandia. As tropas da chamada “Armée B” contavam com uma maioria esmagadora de combatentes originários das colônias. Estimativas apontam que até 80% dos efetivos que participaram da “Operação Dragão” eram africanos, incluindo 15.000 “Tirailleurs Sénégalais” diretamente engajados nas unidades de choque.
O desfile da libertação em Paris.
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