Mary Del Priori: ‘A ideia de que a mestiçagem nasce do estupro é um mito’
Depois de escrever sobre mulheres, sexualidade, infância, velhice e personagens como Chica da Silva e conquistar o Prêmio Jabuti três vezes, Mary Del Priore , 75 anos, encontrou um novo caminho para revisitar uma de suas maiores obsessões: entender o Brasil por histórias que, segundo ela, ficaram distantes das narrativas tradicionais.
O ponto de partida agora é História das Mestiçagens no Brasil (ed.
Unesp), livro que coordena com o professor Gian Mello e que reúne artigos de especialistas de diferentes regiões do país.
Na obra, a historiadora joga luz sobre a formação de uma população parda que, embora apareça como majoritária nos censos desde o século XIX, acredita ter ficado à margem do debate sobre a identidade brasileira.
Da Região Serrana do Rio, onde vive e mantém sua rotina de escrita, Mary falou à coluna GENTE sobre a obra, criticou o ensino baseado na “decoreba”, comentou uma possível nova candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL) e explicou por que, depois de mais de três décadas, ainda continua procurando novas histórias para contar.
O que te levou a mergulhar no tema das mestiçagens? Há algum tempo, historiadores estavam incomodados com a ideia de um Brasil preto e branco.
Desde 1872, no primeiro censo do Império, o Brasil já aparece como pardo.
Depois, veio a perspectiva de vítimas e algozes, mas agora é preciso dar um passo atrás e entender essa branquitude e negritude.
Quando se fala em mestiçagem, pensa-se na mistura entre europeus e africanos.
Mas isso esquece uma parcela imensa de caboclos, sertanejos, cabras e cafuzos.
A mestiçagem não aconteceu apenas na relação entre o senhor e a escravizada, como muitas novelas e filmes fazem parecer.
Qual é o maior mito em torno da mestiçagem? A ideia de que nasce do estupro de escravizadas por senhorzinhos é errada.
É óbvio que houve relações entre senhores e suas escravas, mas isso jamais foi regra.
A nossa mestiçagem nasce de milhares de europeus que são lavradores, de pequenos ofícios e fazem parte do Exército.
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