Socialismo e capitalismo: o duplo padrão do jornalismo contra Cuba
O liberalismo de gabinete do jornalismo brasileiro produziu mais uma pérola. Eu nem sabia, ontem dei de testa com a “corajosa” entrevista (sim, eu li isso em comentários) que a badalada Mônica Bergamo fez no último sábado (23/08) com Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba.
Quando a colunista do diário paulistano pergunta a Díaz-Canel se uma economia de mercado não produziria riqueza com maior facilidade, ela não está simplesmente sendo dura com o presidente cubano. Está retirando Cuba de sua história. Desaparecem mais de seis décadas de embargo, a posição dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial, as sanções que atingem empresas de terceiros países, as dificuldades de acesso a crédito, tecnologia, combustível e mercados. Resta uma ilha abstrata, colocada diante de uma escolha igualmente abstrata: socialismo ou mercado. A pergunta parece econômica, mas seu pressuposto é ideológico. Se Cuba sofre, procura-se a causa dentro do socialismo; aquilo que o país sofre de fora transforma-se em pequeno contexto esquecível.
Não é preciso negar os problemas internos cubanos para perceber a desonestidade desse enquadramento. Cuba tem burocracia, baixa produtividade, dificuldades de gestão e contradições que devem ser discutidas. O próprio Díaz-Canel admite problemas internos. A questão é outra: que espécie de análise econômica elimina justamente as condições nas quais uma economia existe? Países não produzem riqueza em laboratórios. Estão inseridos em relações internacionais profundamente desiguais, dependem de crédito, comércio, energia, tecnologia, transporte, sistemas de pagamento e decisões tomadas muito além de suas fronteiras.
Perguntar se “o mercado” resolveria Cuba sem perguntar se esse mercado viria acompanhado do fim do embargo equivale a comparar duas situações que jamais existiram sob as mesmas condições. Não é economia básica. É um contrafactual viciado e desonesto, para não dizer preguiçoso.
Dois dias depois da entrevista, o editorial da própria Folha tornou mais claro o enquadramento que a pergunta apenas insinuava. O jornal reconhece que o embargo norte-americano agrava a situação cubana, critica sua intensificação por Donald Trump e, em seguida, devolve o peso expl
icativo ao que chama de política econômica “anacrônica” e de modelo socialista “insustentável”.
Díaz-Canel aparece já no título auxiliar como “líder da ditadura”, e Cuba como país que padeceria sob um “modelo estatizante”. É uma operação conhecida: a admissão da violência externa para imediatamente reduzi-la a agravante de menor escala. O sistema econômico cubano permanece sentado no banco dos réus; a potência que há décadas procura estrangular materialmente essa experiência aparece como uma variável lateral.
Há uma curiosa geografia moral nesse vocabulário. “Ditadura”, “autocracia”, “regime” são palavras distribuídas com uma facilidade extraordinária quando se trata de governos que desafiam os Estados Unidos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em operamundi.uol.com.br — o conteúdo pertence a Opera Mundi.