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O sertão que ainda se descobre

Pesquisa FAPESP ·

Em maio de 1952, João Guimarães Rosa (1908-1967) — médico, diplomata e autor de Sagarana (1946), então já incensado pela crítica — tangeu uma boiada por 220 quilômetros, dos gerais até os pastos da fazenda de um primo, em Araçaí (MG), perto de Cordisburgo (MG), sua terra natal.

“Ele voltava de uma estada de três anos em Paris e estava morrendo de saudades do sertão”, conta Érico Melo, pós-doutor em literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e rosiano (especialista no autor mineiro) há mais de 20 anos.

Guimarães Rosa fez o percurso a cavalo, dormindo ao relento com vaqueiros, enquanto anotava observações em cadernetas — ou cahiers d’écrivain, como ele preferia —, que trazia atadas com barbante no segundo botão da “camisa-blusa”.

Essa travessia foi o “evento deflagrador” da escrita de Corpo de baile , volume que reuniria sete novelas, afirma Melo.

Nos anos seguintes, uma narrativa concebida como a oitava, até então intitulada O diabo na rua, no meio do redemunho , ganhou vida própria e a saga de Riobaldo e Diadorim se materializou em Grande sertão: veredas .

Os dois livros foram publicados, respectivamente, em fevereiro e julho de 1956.

As anotações dessa viagem estão reunidas em 157 páginas datilografadas, distribuídas em dois maços, que Rosa intitulou A boiada 1 e A boiada 2 .

“Ali há frases inteiras que ele reproduz nos dois livros”, diz Melo.

Esses registros — que incluem algumas das cadernetas de viagem — estão entre os cerca de 20 mil documentos do Fundo João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (IEB-USP), adquiridos da família do autor em 1973, dos quais 10 mil estão catalogados.

A boiada 1 e 2 foram publicados em 2011 em edição fac-similar pela editora Nova Fronteira.

“Mas nem tudo do acervo de Guimarães Rosa está no IEB-USP.

Os documentos que ainda estão com a família da esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, são uma mina de ouro para estudiosos”, conta Melo.

Foi ali que o pesquisador descobriu 12 folhas retocadas à mão do livro inacabado que levaria o título Boiada .

Se concluído, seria um relato em primeira pessoa da expedição boiadeira de Rosa, em 1952.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistapesquisa.fapesp.br — o conteúdo pertence a Pesquisa FAPESP.

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