Militei, lucrei: a privatização das causas coletivas
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Vocês já repararam que cancelamentos no meio progressista viraram algo corriqueiro, uma dinâmica incorporada à nossa rotina, algo até esperado e tratado como natural? Linchamentos operados por gente que ergue a bandeira da justiça social fazendo justiçamento digital. O que nasceu como um projeto coletivo de emancipação, desenhado para transformar a realidade de minorias marginalizadas, tem sido manipulado por um punhado de gente que descobriu na indignação a melhor fonte de renda do mercado.
No ecossistema digital, elite não se mede por patrimônio ou sobrenome tradicional, mas por número de seguidores, alcance de algoritmo e poder de comandar linchamentos. Essa nova elite do engajamento tem sequestrado lutas legítimas e colocado em marcha o modelo de negócios mais descaradamente neoliberal do planeta: a dor tratada feito commodity, o próprio ego como marca e a militância resumida a uma chave Pix na bio.
Repare que essas pessoas não estão nas galerias do Congresso pressionando parlamentares pela aprovação de leis urgentes, não estão nos bairros periféricos organizando trabalho de base e de conscientização e muito menos debatendo problemas sérios que afetam a população. A rotina dessa turma se resume a fiscalizar a linguagem alheia, apontar o dedo na tela e encontrar o próximo bode expiatório para jogar na fogueira da internet. Para essa engrenagem funcionar a pleno vapor, o progresso concreto é um péssimo negócio. Quanto mais desesperador e opressor o mundo parecer, mais rentável se torna o palco de quem vive de tocar sirenes do pânico moral.
A blindagem desse feudo é manjadíssima. Basta você apontar excessos para ganhar na hora o carimbo de reacionária ou de defensora de privilégios, desqualificando a moral de quem fala para fugir do incômodo de responder ao argumento. E essa crítica nem nasceu na direita. O filósofo Olúfémi O. Táiwò, professor da Universidade de Georgetown e autor de Elite Capture, explica que as elites capturaram o identitarismo e trocaram emancipação material por uma distribuição mesquinha daquilo que ele chama de bens de atenção, restritos a quem é privilegiado dentro das minorias.
Vou mais longe. Como disse no começo, a elite nesse caso não tem nada a ver com a "esquerda caviar" ou a "esquerda cirandeira" , mas com aquela que se aproveita da culpa dessas duas para operar a máquina de destruição de reputações que rende likes, prestígio e Pix. É o neoliberalismo progressista que Nancy Fraser denuncia há décadas, a estética da revolução embalada para o individualismo corporativo.
A grande sacada dessa máquina está na escolha dos alvos. Bater na extrema-direita por motivos óbvios não dá lucro na economia dos cliques, principalmente porque o adversário não se abala com os manifestos e receberá apoio daqueles que pensam da mesma forma. O filé mignon da patrulha é estraçalhar quem está do mesmo lado da trincheira.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.