A submissão como valor intrínseco
Usamos tanto algumas palavras que deixamos de prestar atenção ao que elas dizem.
“Submissão” é uma delas.
Submetemos artigos a periódicos, trabalhos a congressos, projetos a editais, resumos, relatórios, livros, capítulos e pedidos de financiamento.
A palavra circula pela universidade como se significasse apenas um procedimento administrativo.
Mas submeter não significa apenas enviar.
Significa também colocar sob julgamento, sujeitar à autoridade, fazer depender da decisão de alguém ou de alguma instância.
Talvez não seja irrelevante que uma instituição que proclama autonomia, pensamento crítico, liberdade intelectual e emancipação tenha escolhido justamente esse verbo para designar um dos atos mais recorrentes da vida científica.
Não proponho uma guerra contra uma palavra.
Interessa-me o que ela revela.
A ciência precisa de crítica.
Uma hipótese deve poder ser contestada.
Um método precisa ser examinado.
Dados devem ser confrontados.
Argumentos precisam sobreviver ao contraditório.
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